quarta-feira, 2 de abril de 2014

SERIAM OS SEMIDEUSES, HEROIS E SERES MITOLOGICOS FOSSEIS???

Por: Marcelo Domingos Leal


Figura 1 – Fosseis e Mitologia. Fonte: http://griefkiller.blogspot.com.br
Curioso este título não? Imagine que todas as histórias sobre deuses e semideuses greco-romanos, seres mitológicos ou dragões chineses que estamos acostumados a assistir em filmes, ou escutar em histórias contadas por nossos pais, tiveram grande contribuição de fósseis para sua formação. É isto mesmo, fósseis!!! Mas, não estamos falando de fósseis comuns, e sim de estruturas que pertenceram há animais gigantes como dinossauros, grandes répteis terrestres ou marinhos, mega-mamíferos como mamutes, mastodontes e dentes-de-sabre, répteis alados (pterossauros), entre outros.

O estudo dos seres vivos, a busca por saber de onde são, e de onde vieram, sempre foi algo intrínseco ao ser humano, desde a formação das primeiras sociedades. Mas além de estudar os seres que os rodeavam, filósofos e eruditos antigos, deparavam-se vez ou outra, com fragmentos de espécies nunca vistos antes: ossos gigantes, dentes com mais de 20 cm, estruturas que lembravam asas, ou que realmente eram asas, chifres com mais de 2 m de comprimento, fêmures com mais de 2 m de altura, entre outras. Estas estruturas fugiam aos seus conhecimentos, e muitas delas deram origem aos mitos relacionados com heróis, semideuses, seres mitológicos e dragões.

De acordo com MAYOR (2000, p.361) o mito grego consiste numa mistura complexa de contos sobre a origem do mundo natural e a história de seus primeiros habitantes. Essas associações mitológicas com o inexplicável resultaram na criação do termo “geomitologia”, proposto por VITALIANO (1968, p.5-30, 1973, p.305), o qual se refere às lendas que explicam através de metáforas poéticas e do imaginário mitológico, a existência de eventos geológicos como terremotos e grandes atividades vulcânicas.

Os achados eram normalmente considerados pelos gregos, chineses, e outros povos como ossos de dragões, ciclopes ou centauros, mas também atribuídos a gigantes ou a esqueletos de seus heróis, os quais principalmente os gregos imaginavam serem dotados de uma maior estatura (MAYOR, 2000, p.361). Mas, grande parte eram ossos de várias espécies de mamíferos, principalmente de proboscídeos (mastodontes, mamutes e elefantes). Quando por volta dos séculos VIII e VII a.C. começou o culto às relíquias dos heróis, vários ossos de mamíferos foram encontrados e muitos enterrados em grandes túmulos representando os restos mortais dos heróis, num processo que se alongou também pelos séculos VI e V a.C. Ao longo desse período, por todo o mundo grego as cidades-estado procuravam recuperar os restos de seus heróis, buscando assim o glamour peculiar que lhes seria conferido pela sua posse: a consagração religiosa e o poder político (Mayor, 2000). É desta fase talvez a mais extraordinária história da procura dos restos de um herói no mundo grego: a do herói Orestes, de Esparta.

Dentre os seres mitológicos, o grifo é um destes exemplos, sendo na mitologia um animal com cabeça e asas de águia e corpo de leão. Este fazia seu ninho perto de tesouros, pondo ovos de ouro sobre estes, que também eram de ouro. Esta figura mitológica surge provavelmente na Ásia e chega à Europa, mais precisamente aos gregos através de prováveis tribos da Ásia Central que estabeleciam comércio com os filhos de Zeus. Estes em torno de 690 a.C. traziam histórias deste ser magnífico e assustador que guardava grandes tesouros em ouro. Porém, hoje sabemos que ao acharem ossos do Protoceratops (primeiro cara com chifre), um dinossauro ceratopsídeos (que possui chifres na cabeça) que vivia na Mongólia, o confundiram com os grifos da mitologia. Parte desta confusão se dá pelo fato do Proteceratops ser um pequeno dinossauro que possuía um bico curvo muito parecido com o das aves de rapina atuais.

Outro exemplo são os mitos do extremo Oriente, os dragões. Estes geralmente desempenhavam funções superiores a de meros animais mágicos, muitas vezes ocupando a posição de deuses. Na mitologia chinesa, os dragões chamam-se long e dividem-se em quatro tipos: celestiais, espíritos da terra, os guardiões de tesouros e os dragões imperiais. Isto tudo torna-se uma verdade apoiada em achados paleontológicos feitos pelos chineses em 300 d.C., achados estes que com certeza eram fósseis de pterossauros, ou dinossauros carnívoros, que lembram muito os dragões da mitologia de vários povos.

Estranho não, pensar que heróis, semideuses, seres mitológicos e dragões eram na verdade fósseis. Não podemos julgar como incultos os povos que assim descreviam estas estruturas antigamente, devemos entender o contexto social, religioso e científico da época para decifrarmos, o porquê destes fósseis terem sido transformados em mitos fantasiosos. Então, estas estruturas que hoje chamamos de fósseis, foram pouco compreendidas em sua época de descoberta, mas passados os anos, com o avanço científico e o conhecimento adquirido pelos então cientistas vêm mais tarde a dar origem a uma promissora área do conhecimento, a Paleontologia.


REFERÊNCIAS

MAYOR, A. 2000. The first fossil hunters. Paleontology in greek and roman times. Princeton, Princeton University Press, p.361.

VITALIANO, D. 1968. Geomythology: the impact of geologic events on history and legend, with special reference to Atlantics. Journal of the Folklore Institute (Indiana University), 5: 5-30.

LEAL, M. D. As Praticas Envolvendo Paleontologia Como Estratégias Pedagógicas em Museus de Ciências.In: CONGRESSO NACIONAL DE EDUCACAO – EDUCERE, X, 2011, Curitiba, 2011. 12 pg.

LEAL, M. D. Apostila Procurando os Dinossauros. Pinhais: PNFM, 2007.

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