quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Fantasma na Máquina - notas sobre inteligência artificial.

Por Sérgio Faria

O título do artigo é uma expressão de Gilbert Ryle, “The concept of mind”, no qual ele faz uma crítica devastadora à separação cartesiana entre corpo e alma.

A primeira questão a ser colocada é se as máquinas podem, em relação ao pensamento, conhecimento e ação, simular um ser indistinguível do humano. Isto é, ir além da máquina realizadora de atividades programadas através de algoritmos previamente estabelecidos pelo homem.

Tentando aclarar este tema busco na cinematografia, que tem apresentado questões instigantes sobre este tema, dois filmes emblemáticos sobre esta questão. Primeiro, “Eu, robot” de Alex Proyas apresenta a possibilidade da máquina simular humanos, isto é, ser dotada de inteligência artificial forte – AIF, em oposição à inteligência artificial fraca – aif, que só confere a capacidade de realizar tarefas pré-progamadas. AIF só se manifestaria, no filme, como “trechos de códigos randômicos que se uniram para formar protocolos inesperados. De forma não esperada, esses radicais livres elaboram perguntas sobre livre arbítrio, criatividade, e até mesmo sobre a natureza daquilo que chamamos alma. Por que será que quando armazenados no escuro eles [os robôs] se agrupam ao invés de ficarem sós? Como explicar tal comportamento? Segmentos de códigos randômicos? Ou algo a mais? Quando um esquema de percepção se torna uma consciência? Quando calcular probabilidades começa a busca da verdade? Quando é que uma simulação de personalidade se torna o doloroso átomo de uma alma?”

As questões aí colocadas remetem para a possibilidade da AIF a partir de ventos incertos não previstos na programação que poderiam resultar na autocriação da consciência e, portanto, de identidade pelas máquinas.

Deixando de lado o problema da alma, que se encontra no terreno do sobrenatural, e que, portanto, não é verificável pela ciência, pode-se dizer que a criatura, máquina, traria em si o germe da condição ontológica do seu criador, o homem, na medida em que este só se erigiu da natureza como animal gregário. Por outro lado, a consciência não é um mecanismo de redes lógicas, é antes o resultado de um longo e doloroso processo de interação com o mundo junto e através de outros homens. Neste processo, desejos, frustrações e repreensões têm um papel decisivo.

Lembrando Ryle, “o sujeito é um agente que se constrói pela interação com o meio-ambiente através do conjunto de suas ações.” Podemos afirmar que há um mundo de ações além das estruturas formais de pensamento onde a aprendizagem da língua tem um papel destacado. Ocorre, porém, que a linguagem não é apenas um conjunto de significantes, normas e formas de uso, isto é, não se trata apenas de uma sintaxe, é antes um conjunto de estruturas vivas em constante transformação que precede os indivíduos. Para a construção do robô humanizado, o grande obstáculo a superar é a necessidade de uma completa linguagem artificial que comportasse todas as infinitas possibilidades de significação, que abriga em cada situação o dito, o não-dito, a forma com que é dito incluindo o gestual que acompanha. Isto inclui o piscar com um olho só do detetive Spooner, na busca de articulação de uma cumplicidade com o robô Sony.

Outro filme instigante é “Blade Runner” de Ridley Scott, no qual a Los Angeles de 2019 é invadida por seis replicantes. Replicantes são uma fusão entre homem e máquina produzidos por intervenções de biotecnologia e eletrônica que só podem ser diferenciados dos humanos através de um teste científico-psicológico, sofisticado, aplicado por um especialista bem treinado. Os replicantes são programados para terem somente quatro anos de vida e são banidos da Terra para realizarem tarefas no espaço. Os seis replicantes rompem o banimento e por isso devem ser caçados e exterminados. Eles vêm à Terra em busca de suas origens e de mais vida. Ao final, o último replicante, Roy, em combate mortal com o seu caçador, Dick Deckark (Harisson Ford) começa a morrer e num gesto final, salva o seu caçador e diz que viu “coisas inimagináveis para além de Orion e que todos os momentos são como lágrimas na chuva. É hora de morrer”. Pouco antes ele havia pedido para Deckark : “ Mostre-me do que você é feito!” Em seguida, Deckark declara aos que vêm resgatá-lo: “Eu não sei por que ele salvou a minha vida, talvez porque naqueles últimos momentos ele tenha amado a vida mais do que nunca. Afinal, tudo o que ele queria era as mesmas respostas que o resto de nós: de onde eu vim? Para onde eu vou? Quanto tempo eu tenho? E tudo o que eu pude fazer era sentar-me lá e vê-lo morrer.”

Estas questões, embora fictícias, remetem para o fato de que todos somos blade runners, pois estamos correndo sobre a lâmina que separa homens e máquinas, cuja espessura diminui a cada dia.
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3 comentários:

  1. Cara, que texto riquíssimo. Vou acompanha-lo nas suas publicações!
    Sucesso!

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  2. Cara, que texto riquíssimo. Vou acompanha-lo nas suas publicações!
    Sucesso!

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