sábado, 29 de junho de 2013

O mito na Filosofia!

Por Elaine Barbosa

Prometeus  e a águia que lhe devorava o fígado.

Mito (palavra grega = narrativa): modo de consciência que predomina nas sociedades tribais e que nas civilizações da antiguidade ainda exerceu significativa influência. Mito não é lenda, pura fantasia, mas verdade. A verdade do Mito resulta de uma intuição compreensiva da realidade, cujas raízes se fundam na emoção e na afetividade. Ele expressa o que desejamos ou tememos, como somos atraídos pelas coisas ou como delas nos afastamos. Para alguns intérpretes, o Mito está impregnado do desejo humano de afugentar a insegurança, os temores e a angústia diante do desconhecido, do perigo e da morte. Sustentam-se na crença, na fé em forças superiores que protegem ou ameaçam, recompensam ou castigam. Na Filosofia existem 3 explicações para a palavra Mito Vamos a elas:

1) Como uma forma atenuada da intelectualidade.


Na antiguidade, o mito é considerado um produto inferior ou deformado da atividade intelectual. Platão contrapõe o mito à verdade ou à narrativa verdadeira, é o “caminho humano e mais leve” da persuasão. Para Aristóteles, o mito é algumas vezes oposto à verdade mas, às vezes, assume uma validade moral ou religiosa. Ele não é claramente concebível, mas seu significado moral e religioso nos ensina sobre a conduta do homem em relação aos outros homens, à divindade.

2) Mito é uma forma autônoma de pensamento e de vida. 


Não tem uma validade ou função secundária e subordinada em relação ao conhecimento racional, mas   originária e primária e se coloca em um plano do intelecto dotado de igual dignidade. Para Vico, “as fábulas ao seu nascer foram narrações verdadeiras e severas, primeiramente obscenas em geral e, por isso, depois se tornaram impróprias, portanto alteradas, em seguida inverossímeis, depois obscuras, daí escandalosas, e finalmente incríveis, que são sete fontes da dificuldade das fábulas”. A verdade do mito não é, portanto, uma verdade intelectual corrompida ou degenerada mas,  uma verdade autêntica, embora de uma forma diferente daquela intelectual, isto é, de forma fantástica ou poética. Sob este ponto de vista, os poetas devem ter sido os primeiros historiadores das nações e os caracteres poéticos contém significados históricos que foram, nos primeiros tempos, transmitidos de memória pelos povos. Estes poetas ambulantes eram chamados de aedos e rapsodos, e produziam coletiva e anonimamente seus relatos. Hesíodo tinha interesse pela crença nos mitos. Em Teogonia (grego, théos, “deus”, e gonos “origem) relata as origens do mundo e dos deuses, em que as forças emergentes da natureza vão se transformando nas próprias divindades. Por isso a teogonia, é também uma cosmogonia (grego Kósmos, “mundo”, “ordem”, “beleza”), na medida em que narra como todas as coisas surgiram do Caos (vazio inicial) para compor a ordem do cosmos.

Pela metafísica teológica, Schelling vê no mito a religião natural do gênero humano, uma fase da auto revelação do absoluto. O mito faz parte integrante do processo da Teofonia (mundo como manifestação de Deus). O mito é uma fase da Teogonia (a geração dos deuses e do mundo, a cosmologia mítica), que está além e acima da natureza porque é a manifestação de Deus como consciência da natureza ou relação desta com o eu. Na Filosofia, a melhor expressão desta interpretação de mito é de Ernesto Cassirer, no qual a característica do pensamento mítico é avistada na falha ou imperfeita distinção entre o símbolo e o objeto do símbolo, isto é, na falha ou imperfeita consciência do símbolo como tal. O mito e a religião primitiva não são certamente de todo incoerentes, não são totalmente privados de senso e de razão. Sua coerência provêm,  muito mais de uma unidade sentimental do que de regras lógicas. Na Sociologia, o mito é o produto de uma sociedade (mentalidade) pré-lógica. Para Durkheim o verdadeiro modelo do mito não é a natureza mas,  a sociedade e que esse é em todo caso a projeção da vida social do homem. Para Lévy-Bruhl, o pensamento mítico é pré-lógico,  no sentido que este prescindiria completamente da ordem necessária, a qual, para o pensamento lógico, constitui a natureza e a veria como uma “rede de participações e de exclusões místicas,  na qual não valem a lei da contradição e as outras leis da lógica”.

3) O mito e o fator sociológico.


Na moderna teoria sociológica de Malinowski a função do mito é, em resumo, a de reforçar a tradição e dar-lhe maior valor e prestígio unindo-a a mais alta, melhor e mais sobrenatural realidade dos acontecimentos iniciais. “Cada mudança histórica cria sua mitologia, que é todavia só indiretamente relativa ao fato histórico”.

Para Augusto-Comte fundador do positivismo (positivo = ver, é o último e mais perfeito estado abrangido pela humanidade) – o pensamento reflexivo teria decretado a morte da consciência mítica – ao explicar a evolução da humanidade, define a maturidade do espírito humano pela superação de todas as formas míticas e religiosas. Opõe radicalmente mito e razão, inferiorizando o mito como tentativa fracassada de explicação da realidade. O positivismo faz nascer o mito do cientificismo (crença cega na ciência como única forma de saber possível). O positivismo mostra-se reducionista (ciência única interpretação válida do real). 

Mas o mito ainda é uma expressão fundamental do viver humano, o ponto de partida para a compreensão do ser. Tudo o que pensamos e queremos se situa inicialmente no horizonte da imaginação, nos pressupostos míticos, cujo sentido existencial serve de base para todo o trabalho posterior da razão.

REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, Nicolas. Dicionário de Filosofia. Editora Mestre Jou. São Paulo, 1992.

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda & Martins, Maria Helena Pires. Filosofando. Introdução à Filosofia. Editora Moderna. São Paulo, 2009.

CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. Editora Ática. São Paulo, 2009.


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