segunda-feira, 20 de maio de 2013

Fraturamento hidráulico: uma técnica e suas conseqüências no mundo globalizado!

Por Eduardo Cordeiro Uhlmann

Fonte: Manutenção e suprimentos.

Nos últimos anos, uma nova técnica de extração de gás do xisto reduziu o custo deste recurso natural nos Estados Unidos e vem provocando uma onda de otimismo e até a promessa de autossuficiência energética para o país.

Na região nordeste dos Estados Unidos, mais precisamente sob os estados de Nova York, Pensilvânia, Ohio e Virgínia Ocidental, há no subsolo uma camada de xisto chamada de Marcellus, que pode conter cerca de 1,5 trilhão de metros cúbicos de gás recuperável.

Quatrocentos milhões de anos atrás, Marcellus era lama no fundo do oceano. Hoje é uma profunda e extensa camada de xisto, uma rocha metamórfica cujo interior aprisiona moléculas de gás de xisto.

A nova técnica, chamada de fraturamento hidráulico consiste em bombear com alta pressão água com areia e solventes para dentro do xisto. Quando isso é feito, o gás de xisto, inicialmente preso nas camadas de xisto é liberado e flui para a superfície, a areia se aloja entre essas camadas, mantendo-as abertas.

Isso gerou uma super oferta de gás de xisto, também chamado de gás não convencional, o que fez o seu preço em 2008 nos EUA cair de US$ 9 para menos de US$ 2. Para as indústrias que usam o gás como matéria-prima (caso da fabricação de fertilizantes), para aquelas que usam o gás para mover máquinas e também aquelas que dependem de altas temperaturas em seus processos, esse barateamento do gás é bastante significativo.

No Brasil, onde o gás custa cerca de cinco vezes mais, os efeitos são claros. Indústrias de cerâmica e vidro, petroquímica e química, que podem ter no gás até 35% do seu custo, têm perdido competitividade no mercado internacional, o que vem reduzindo drasticamente as perspectivas de crescimento e investimentos no setor.

Isso está sendo alardeado por parte da mídia brasileira como um sinal de que é premente a utilização desta técnica no país. Porém, os efeitos do hydraulic frackturing (nome da técnica em inglês) no meio ambiente ainda não são completamente conhecidos.

Além dos riscos comuns a todo tipo de perfuração do solo, durante o fraturamento hidráulico, um terço do que está no poço vem à tona, incluindo a água, solventes, rochas e petróleo, criando um risco considerável de contaminação do lençol freático, do solo e de águas superficiais.

John Hanger, ex secretário do meio ambiente da Pensilvânia diz que os casos de contaminação são isolados, e que a utilização do gás não convencional é mais limpa e benéfica ao meio ambiente. Já para Yuri Gorby, cientista que pesquisa a contaminação da água, a extração deveria ser interrompida imediatamente, pois o que está ocorrendo no nordeste dos EUA é uma tragédia.

Terry Greenwood, por exemplo, dono de uma fazenda nas imediações de onde o gás vem sendo extraído (a fazenda foi comprada quando com os direitos de exploração do subsolo já cedidos), teve muitos dos seus bezerros nascidos mortos, ele relata que a água das fontes da região agora apresenta odor insuportável e pega fogo, bolhas de gás metano estão presentes nessa água.

O caso do gás do xisto é um exemplo nítido da complexidade da sociedade mundial globalizada, em que fluxos de investimentos podem determinar a recessão ou o aquecimento de amplos setores da indústria, com todas as suas consequências sociais, econômicas e políticas. Se estes fluxos podem ser direcionados por uma técnica com alto grau de impacto ambiental (o que é provável, ainda que não tenha sido confirmado pelas pesquisas) gerando inclusive lobbys para a sua utilização alhures, que chance tem o meio ambiente?

Em meio aos discursos tão diversos por parte de setores industriais e ambientais, urge que nos tornemos conscientes das relações existem entre a tecnologia, a indústria, o meio ambiente, a economia, a política para que possamos nos situar e decidir conscientemente sobre como agir enquanto cidadãos e consumidores. Esse papel cabe à educação, formal e informal, que para nos preparar para lidar com essas novas questões, deve abraçar a complexidade e a transdisciplinaridade. Só assim, deixaremos de ser como folhas levadas ao vento pelos ditames econômicos e passaremos a ter voz e vez enquanto participantes ativos das ações humanas na história da vida na Terra.


REFERÊNCIAS/PARA SABER MAIS


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