domingo, 9 de junho de 2013

Algumas considerações sobre o fato religioso nas Ciências Sociais!

Por Rafael da Silva Tangerina

Fonte: Fonte: GIL FILHO, S. F. (1999)

O fenômeno religioso enquanto categoria de análise está inserido no objeto de estudo das ciências sociais. Muitas obras encontram-se presentes no campo da Antropologia, Psicologia, Geografia Cultural e principalmente na Sociologia. De fato, a religião está presente na manifestação da cultura humana, mas isso não quer dizer que a mesma é produto desta manifestação, e sim, parte dela. Esclarecemos que o fato religioso possui uma característica peculiar: a sacralização de indivíduos, de coisas, de objetos, enfim de simbologias que ganham conteúdo e forma em um determinado espaço, este último chamado de espaço de representação do sagrado.

Durkheim, por exemplo, elaborou a “Teoria Social da Religião” baseada numa descrição do êxtase coletivo, transe como efeito da criação de uma alma coletiva, sendo um produto da pressão dos indivíduos reunidos no espaço sagrado. Tratou do aspecto exterior do social quando se empreender a exploração de uma ordem qualquer de fatos sociais, ressaltando que devemos se esforçar para considerá-los em seus aspectos gerais e comuns, e não em suas manifestações individuais. Durkheim esclarece que se deve explicar um fato social de alguma complexidade somente seguindo seu desenvolvimento integral através de todas as espécies sociais (GUSMÃO, 1972, p. 69).

GIL FILHO (1999, p. 94) lembra que a opção de Durkheim foi de colocar de lado as concepções correntes de religião e ater-se à realidade concreta focando o que as religiões têm em comum. A redutibilidade das características essenciais de todo e qualquer lugar no qual está presente a religião, assentaria a própria base conceitual da mesma. Para GIL FILHO o tratamento de Durkheim sobre a religião é a pura consideração do fato, que ultrapassa qualquer julgamento a priori no que condiz com a veracidade ou a falsidade da mesma, comenta ele (Durkheim) que se a religião não estivesse edificada na própria natureza das coisas teria encontrado no fato uma oposição da qual não resistiria. Assim, a religião para Durkheim revelaria concepções que visam muito mais explicar o que há de “constante e regular nas coisas” do que há de excepcional.

Para Max Weber (o maior representante da Sociologia compreensiva) utilizando largamente os “tipos ideais” rasgou novos horizontes para a Sociologia, bem como empregando a “compreensão” destinada a atingir o sentido interno da ação social, converteu-se em um dos precursores do estudo do aspecto interior do social (estudo das coisas materiais), pois a face exterior já havia sido profundamente analisada por Durkheim (GUSMÃO, 1972, p. 107-8).

Um exemplo típico desse estudo apontado por GUSMÃO (1972) em relação a Weber, é a “Teoria do Karma” (ver WEBER, 1964, p. 690) que não deixa o homem de castas baixas outra possibilidade de ascensão social senão a reencarnação depois da morte numa casta superior.

O pensamento de Weber baseia-se muito mais nos efeitos e condições impostos pela religião em um particular tipo de comportamento social. Os caminhos externos da prática religiosa são muito diversos quanto à compreensão. Podem ser apreendidos sob o ponto de vista de experiências subjetivas, ideias e propósitos concernentes ao indivíduo. As mais elementares formas de comportamento motivadas pelas religiões estão orientadas para este mundo. Sob este aspecto, Weber teoriza sobre a religião como sendo motivadora de uma ação muito mais atinente ao mundo objetivo do que propriamente metafísico. Esta conduta cotidiana estimulada pela religião ao mundo objetivo reforçou a tese de que “o propósito das religiões e ações mágicas são predominantemente econômicos” (GIL FILHO, 1999, p. 95).

GIL FILHO (1999) faz uma crítica a análise weberiana, por entender que esta não atribui uma identidade específica ao sagrado, pois para o autor, nesta concepção a religião é vista muito mais no âmbito de uma prática social do que propriamente um campo analítico possuidor de uma especificidade própria.

Já baseado no materialismo histórico, para Karl Marx a religião é a expressão de um certo estado econômico e social, é um reflexo das infraestruturas, flutua acima das realidades objetivas muito mais do que a exprime, sendo utilizada para melhor assegurar sua dominação ou traduzindo sob uma forma ilusória, a consciência ferida do proletariado que foge das realidades dolorosas para um mundo imaginário. No que tange à crítica materialista da religião, Marx e Engels, atribuem uma raiz social ao pensamento religioso não o considerando nem uma revelação sobrenatural, nem o resultado de um colúrio de sacerdotes, mas sim como fundamentadas em uma realidade histórica concreta. Sob o ponto de vista de Marx, a religião é um reflexo ilusório das contradições sociais, e seria mais eficaz eliminar suas raízes sociais, ou seja, subordiná-la à luta de classes (GIL FILHO, 1999, p. 96).

MARX (1972) nos diz que:
São os homens reais que são produtores de suas representações, das suas ideias. A vida concreta é que determina a consciência; sob este aspecto, a moral, a religião, a metafísica não têm uma autonomia real. Não tendo autonomia também não têm história, nem desenvolvimento, pois não é a consciência que determina a vida e sim a vida que determina a consciência. Sendo a religião ideologia, a dissolução das ideias ultrapassadas caminha a par com a dissolução das antigas condições de existência. (MARX, 1972)
O sociólogo Roger Bastide faz oposição a Marx por considerar que a ideologia religiosa se distingue das outras formas de ideologia, das ideologias políticas, por exemplo, que por mais que façam para degrada-la, não poderão nunca apagar completamente o caráter distintivo do sagrado. Os valores místicos podem trazer consigo as cicatrizes das tensões sociais, na medida em que elas são valores místicos e não políticos; conservam elas uma certa especialidade que o sociólogo tem o dever de descrever ou, em todo caso, reconhecer. 

Chamamos a atenção para o fato de que a presença e a permanência da religião causam inúmeros questionamentos em todas as ciências que tem no homem objeto de estudo. Assim, existe uma diversidade de ideias quanto ao fato religioso e a sua influência na vida humana. Cabe ao pesquisador a atenção as diferentes possibilidades de análise ao definir a metodologia que conduzirá a sua problematização/ compreensão sobre o fato religioso na vida social.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BASTIDE, R. As Religiões africanas no Brasil, vol I E II. São Paulo: USP, 1971.

DURKHEIM, E. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 1996 – (Coleção Tópicos). 

GIL FILHO, S.F. Espaço de Representação e Territorialidade do Sagrado. Notas para uma teoria do fato religioso. Ra’ega. O espaço Geográfico em análise.n.3. Curitiba, UFPR, 1999, p.91-120.

 __________. Identidade Religiosa e Territorialidade do Sagrado: notas para uma teoria do fato religioso. In: ROSENDAHL, Z. ;CORRÊA, R.L. (orgs.) Religião, Identidade e Território. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2001. 39-55p.

GUSMÃO, P. Teorias Sociológicas. São Paulo. Editora Forense, 1972

MARX, K. ; ENGELS, F. Sobre a Religião. Lisboa. Edições 70, 1972

WEBER M. Tipos de Comunidade Religiosa. In: Económia e Sociedad. Buenos aires, Fundo de Cultura Económica, vol 2, 1964


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