quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A Geografia além da visão!

Por Lawrence Mayer Malanski

Pessoas vivem imersas em espaços carregados de imagens visuais, sons, odores, texturas e até mesmo sabores e os percebem simultaneamente através de todos os sentidos e da mente (TUAN, 1980). Pense no centro de sua cidade e tente se lembrar de pelo menos uma característica relacionada a cada sentido humano. Você notará que nesse espaço existem várias.

Na cultura ocidental, a visão humana é o principal sentido relacionado à percepção do espaço (o que Schafer, 2010, denomina “cultura do olho”), ao contrário de animais como os morcegos, que se orientam principalmente através dos sons e os cachorros, que possuem olfato bastante desenvolvido. Diariamente, nos grandes centros urbanos, as pessoas são submetidas a uma grande carga de estímulos visuais, como placas publicitárias, sinais de trânsito, fachadas de prédios e casas entre outros. No entanto, desde a Revolução Industrial, com os sons das máquinas cada vez mais presentes no cotidiano, houve uma transformação profunda na sonoridade dos espaços, principalmente nas cidades, que se tornaram mais “barulhentas”.  

Poluição visual no centro de Curitiba, a “cultura do olho”.

Com a Revolução Industrial novos sons surgiram na paisagem.

Em 1977, o compositor canadense Murray Schafer publicou o livro The Tuning of the World (A Afinação do Mundo) com os resultados de sua pesquisa a respeito de ambientes sonoros chamado World Soundscape Project (Projeto Paisagem Sonora Mundial). Esse trabalho se tornou uma das principais referências para estudos a respeito da paisagem sonora. De acordo com Schafer (2001) a paisagem sonora pode ser definida como todo conjunto de sons de um espaço. Esse conjunto pode ser percebido como ruído (paisagem sonora lo-fi) ou os sons podem ser distinguidos individualmente (paisagem sonora hi-fi). Sabendo disso, pense e compare a paisagem sonora de um espaço rural e urbano, como cada uma pode ser classificada?

Em Geografia, paisagem é comumente definida como tudo aquilo que um lance de visão pode contemplar. Contudo, as novas abordagens dessa ciência, sobretudo a geografia humanista, proporcionam formas alternativas para compreensão desse termo. Assim, paisagem pode ser definida como uma porção do espaço percebida pelos sentidos humanos e pela mente. Por tanto, essa ideia perpassa pela experiência espacial e pela apreciação do espaço vivido. São exemplos dessa outra forma de compreender o conceito de paisagem: as paisagens olfativa, tátil, gustativa, visual e sonora (MALANSKI, 2011). Um trabalho interessante envolvendo tais paisagens é o Mapa das Sensações de São Paulo (ver saiba mais), que tem por objetivo mapear diferentes sensações que podem ser experimentadas pelo turista na cidade. 

Além do propósito turístico, como no Mapa das Sensações de São Paulo, pensar o espaço a partir de outros sentidos contribuiu para torná-lo melhor em vários aspectos. Assim, a paisagem sonora é uma preocupação constante de urbanistas no que diz respeito ao conforto ambiental e a poluição sonora, por exemplo, e a cartografia tátil é um recurso importante para orientação de cegos. 

Mapa tátil.

Saiba mais:

Mapa das Sensações de São Paulo: http://www.mapadassensacoes.com.br/mapadassensacoes/

Mapa do barulho de Belo Horizonte: 

REFERÊNCIAS

MALANSKI, Lawrence Mayer. Geografia escolar e paisagem sonora. RA E' GA v. 22. Curitiba, 2011. 
Disponível em: http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/raega/article/viewFile/21775/14175
Acesso em: 09 ago. 2013.

SCHAFER,  Raymond.  Murray.  A  afinação  do  mundo:  uma  exploração  pioneira  pela história  passada  e  pelo  atual  estado  do  mais  negligenciado  aspecto  do nosso ambiente: a paisagem sonora. São Paulo: Ed. da UNESP, 2001.

TUAN, Yi-Fu.  Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo: Ed. Difel, 1980.
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