segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Armas Químicas!

Por Alan Eduardo Wolinski

Figura 1. Símbolo usado para identificar Armas Químicas. Fonte: hazmatcarriers.com.

Armas químicas são definidas como qualquer substância química cujas propriedades tóxicas são utilizadas com a finalidade de matar, ferir ou incapacitar algum inimigo na guerra ou em operações militares (SMART, 1997).

O uso de substâncias químicas para estas finalidades é conhecido desde os tempos da Grécia Antiga. Por exemplo, em 600 a.C. o ditador Ateniense Solon, durante o cerco à cidade de Crissa, utilizou raízes de Heleborus (laxante) para envenenar os suprimentos de água de seus inimigos. Entre 431 e 404 A.C durante a Guerra do Peloponeso, os Espartanos usaram uma mistura de piche e enxofre em chamas, conhecido como Fogo Grego, no ataque à Plateia e Délio.

Nos séculos XVIII e XIX, foi descoberta a maioria dos agentes químicos, e com o surgimento das bombas incendiárias de Arsênio, inicia-se a guerra química considerada moderna e, apesar de utilizados desde a antiguidade, os agentes químicos só passaram a ser empregados em larga escala na Primeira Guerra Mundial.

O químico alemão Fritz Haber, prêmio Nobel de química em 1918 pelo desenvolvimento do processo Haber de síntese da amônia, em 22 de abril de 1915, organizou e coordenou um ataque em Ypres, Bélgica, utilizando o Gás Cloro, vitimando aproximadamente 5 mil soldados franceses e mais 10 mil em outros ataques. Devido a este fato, Haber ficou conhecido como o pai da guerra química moderna. 

Após os alemães, franceses e britânicos também começaram a desenvolver estratégias de combate utilizando armas químicas.

Os primeiros ataques impulsionaram o aumento nas pesquisas para o desenvolvimento de armas químicas mais potentes, armas capazes de provocar lesões na pele e criação de novos sistemas para dispersão de tais compostos. 

Na tentativa de reduzir os impactos deste tipo de ataque, foram desenvolvidas máscaras e roupas que protegessem o minimizassem o efeito das armas químicas.

Figura 2. Máscara e roupa antigás. Para proteger os soldados contra a inalação dos agentes e as roupas de proteção para prevenir que agentes tóxicos atingissem o corpo através da pele. Fonte: navalbrasil.com.

Um pouco antes da Segunda Guerra Mundial surgiram outros agentes, muito mais letais que os utilizados na Primeira Guerra, capazes de matar em poucos minutos.

AGENTES QUÍMICOS


1) AGENTES NEUROTÓXICOS

Grande parte dos agentes neurotóxicos foi originalmente produzida na pesquisa de defensivos agrícolas, são compostos organofosforados, que atuam na inibição da enzima acetilcolinesterase, no espaço intersináptico. Os principais representantes desta classe são: Tabun (GA); Sarin (GB); Soman (GD) e o agente VX, estes agentes são altamente tóxicos quando inalados, ingeridos ou em contato com a pele e olhos, e devido à toxicidade foram usados na guerra e por grupos terroristas.

Em 1994 um ataque terrorista de uma seita religiosa liberou Sarin na cidade de Matsumoto (Japão) matando 7 pessoas e ferindo cerca de 200. E, no ano seguinte, outro ataque do mesmo grupo terrorista, utilizando novamente o gás Sarin, causou a morte de 12 indivíduos e deixou mais de 5000 feridos em um metrô, na cidade de Tóquio.

Os efeitos da exposição aos neurotóxicos incluem a redução do diâmetro da pupila, salivação e sudorese excessivas, náusea, vômitos, tremor incontrolável, inconsciência, convulsão, paralisia, coma, parada respiratória e morte. Os efeitos incapacitantes ocorrem entre 1 e 10 minutos. Os efeitos fatais da exposição ao GA, GB e GD podem ocorrer entre 1 e 10 minutos e de 4 a 42 horas para o VX.

2) AGENTES VESICANTES

Os agentes vesicantes são compostos derivados do enxofre e do nitrogênio, conhecidos como mostardas, ou do arsênio, conhecidos como levisitas. Em contato com a pele induzem a formação de bolhas e queimaduras e podem ser absorvidos por via respiratória, afetando pulmão e o trato gastrintestinal.

Estes compostos não são extremamente letais porém, incapacitam o inimigo nos combates, sendo que a causa mais comum de morte por exposição ao agente mostarda é por complicações causadas por dano ao pulmão na exposição inalatória. Entretanto, o exato mecanismo de ação tóxica do agente mostarda ainda não está completamente elucidado.

O gás mostarda foi usado pela primeira vez em 1917 pelo exército alemão no combate de Flanders (próximo à Bélgica) e em 1918 durante a Primeira Guerra Mundial.

3) AGENTES SANGUÍNEOS OU HEMOTÓXICOS

Os agentes sanguíneos ou Hemotóxicos são substâncias que, após absorvidas, danificam células sanguíneas, impedindo o transporte de oxigênio e produzindo sufocação. São classificados como simples ou químicos.
Os asfixiantes simples agem deslocando fisicamente o oxigênio do ar, como o metano, o nitrogênio, entre outros. Os asfixiantes químicos interferem no transporte de oxigênio a nível celular, causando hipóxia tecidual (falta de oxigênio nos tecidos). Os asfixiantes mais importantes utilizados como agentes de guerra são: cloreto de cianogênio e o ácido cianídrico (HCN).

Desde a antiguidade, o cianeto encontrado em algumas plantas, era utilizado com a finalidade de causar intoxicação. Porém, apenas na Primeira Guerra Mundial, este agente foi produzido em larga escala com o mesmo propósito. 

O HCN era o componente principal do Zyklon B, uma mistura de sulfato de cálcio com HCN (aproximadamente 40 % em peso) utilizado nas câmaras de gás nazistas da Segunda Guerra Mundial. O ácido cianídrico é altamente tóxico por inalação, mas pode também ser absorvido pela pele quando na forma líquida.

Figura 3. Lata do Zyklon B e sólido que continham o gás, usado pelos nazistas em Auschwitz. Fonte: Flickr.com.

Os cianetos interferem na respiração em nível celular, fazendo com que as células não consigam utilizar o oxigênio em seus processos bioquímicos, resultando num acúmulo de ácido lático (acidose) e, consequente, na morte celular. Os principais sintomas da intoxicação com cianeto são fraqueza, perda dos reflexos, constrição na garganta, inicialmente aumento da taxa de respiração e cardíaca, seguida de depressão respiratória, inconsciência, parada respiratória e morte.

O cloreto de cianogênio (CK) apresenta toxicidade semelhante ao HCN porém, provocava em baixas concentrações, irritação dos olhos e pulmões. O CK é mais pesado e menos volátil que o HCN, sendo empregado na indústria para a síntese de herbicidas, refino de minério e como limpador de metal.

4) AGENTES SUFOCANTES

Esses agentes são chamados de sufocantes porque atuam diretamente sobre o sistema respiratório, causando edema pulmonar e a morte por sufocamento. Os sufocantes mais utilizados em guerra foram o cloro, o difosgênio, a cloropicrina e o fosgênio.

Fosgênio(CG): Este é o principal agente sufocante. Foi largamente utilizado pelos alemães em 1915 ainda em Ypres, como um substituto mais tóxico para o cloro e foi o agente químico que causou o maior número de mortes na Primeira Guerra Mundial. A inalação é a principal via de exposição ao fosgênio. A exposição a altas concentrações pode irritar os olhos, nariz e garganta. Cerca de 80% dos casos fatais ocorrem nas primeiras 24-48 horas após a exposição.

Difosgênio: Foi introduzido para penetrar nas máscaras contra gases, uma vez que ele se decompõe em fosgênio e clorofórmio que era capaz destruir os filtros da época permitindo a entrada do fosgênio.

5) OUTROS AGENTES

Napalm: É uma goma obtida da mistura de gasolina e outros derivados do petróleo com sais de alumínio produzidos dos ácidos palmítico e naftênico, que apresenta característica incendiária. Este agente foi desenvolvido durante a 2ª Guerra Mundial por pesquisadores norte-americanos. 

Na época da Guerra do Vietnã, este agente sofreu uma um aperfeiçoamento, passando a ser solidificado com poliestireno adicionado à gasolina, originando o Napalm B. A adição do polímero faz com que o produto permaneça aderido aos alvos, à medida que ocorre sua queima.

Agente Laranja: Também utilizado na guerra do Vietnã, era uma mistura meio a meio de dois herbicidas comuns, 2,4-D e 2,4,5-T+ Sua utilização tinha o propósito de desfolhar a densa vegetação das selvas vietnamitas e, portanto, reduzir as possibilidades de uma emboscada. Por apresentar em sua composição compostos cancerígenos, seu uso deixou sequelas terríveis na população daquele país e nos próprios soldados norte-americanos.

A proibição de armas químicas de Guerra


O uso deste tipo de arma é condenado desde muito tempo, sendo que a primeira tentativa visando proibir tal prática foi o tratado internacional franco-germânico assinado em Strasburgo, em 1675, proibindo a utilização de balas envenenadas. 

Em 1925, o Protocolo de Genebra procurou limitar o uso de armas químicas, mas elas continuaram a ser utilizadas em vários conflitos do século XX.

A Convenção para a Proibição de Armas Químicas (CPAQ), promovidas pela Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, adotou o texto por consenso, no dia 13 de janeiro de 1993, em Assembleia Geral, proibindo o uso deste tipo de arma por parte de qualquer um dentre os países signatários. Este acordo entrou em vigor no dia 29 de abril de 1997. A CPAQ teve o papel fundamental de possibilitar a eliminação das armas químicas, porém vários membros dessas convenções ainda possuem grandes estoques destes agentes.

REFERÊNCIAS

COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte I - Histórico. RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 4, n. 3, p. 137- 172, out. 2011.

COLASSO, Camilla; AZEVEDO, Fausto Antônio de. Riscos da utilização de Armas Químicas. Parte II – Aspectos Toxicológicos.RevInter Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 5, n. 1, p. 7-47, fev. 2012.

 FRANÇA, T. C. C.; SILVA, G. R.; de CASTRO, A. T. Defesa Química: Uma Nova disciplina no Ensino de Química. Rev. Virtual Quim., 2010, 2 (2), 84-104.

Ficha de Informação Toxicológica (FIT) – Agentes Asfixiantes. Divisão de Toxicologia, Genotoxicidade e Microbiologia Ambiental – CETESB – 2012.

Ficha de Informação Toxicológica (FIT) – Agentes Neurotóxicos. Divisão de Toxicologia, Genotoxicidade e Microbiologia Ambiental – CETESB – 2012.

Ficha de Informação Toxicológica (FIT) – Agentes Vesicantes. Divisão de Toxicologia, Genotoxicidade e Microbiologia Ambiental – CETESB – 2012.

http://www.uff.br/rvq

http://www.cetesb.sp.gov.br

http://www.cdcc.usp.br/ciencia/artigos/art_14/armaquimica.html

http://arturhoo.ar.funpic.org/modules.php?name=tipos_de_armas_quimicas

http://www.ff.up.pt/toxicologia/monografias/ano0506/anti_motim/html/conclusao.html

http://www.educacional.com.br/reportagens/armas/quimicas.asp
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