quinta-feira, 17 de abril de 2014

COMO PERCEBEMOS E REPRESENTAMOS O ESPAÇO?

Por: Lawrence Mayer Malanski

Dotados de órgãos sensoriais comuns, imersos em ambientes culturais e capazes de agir de acordo com seus próprios julgamentos, os seres humanos podem perceber e representar suas experiências espaciais sejam essas vividas ou imaginadas. Compreender o modo como as pessoas percebem e representam suas realidades, aspirações e medos pode ser útil para tornar os espaços cotidianos mais agradáveis, melhores, enfim, mais humanizados.

Buscando abordar a questão acima, desenvolve-se a partir da década de 1960 nos países da América Anglo-saxônica e alguns europeus a chamada Geografia Humanista com aporte antropológico, histórico, filosófico e psicológico. No entanto, fundamenta-se essa vertente geográfica na Fenomenologia, cujo objetivo é descrever como as coisas e os objetos se apresentam à consciência humana (essências eidéticas). 

Nota-se nisso, um caráter antropocêntrico, no qual o ser humano recebe importância para a conformação do mundo (MALANSKI, 2014).

Para Tuan (1980) um ser humano é um organismo biológico, um ser social e um indivíduo único que forma uma realidade complexa com diferentes manifestações, como o corpo, o conhecimento, a vontade, a linguagem, a sociabilidade, a cultura, o trabalho, o jogo e a religião. 


PERCEPÇÃO ESPACIAL

Simultaneamente através dos cinco sentidos e da mente as pessoas percebem o espaço a sua volta e interagem com ele tornando-se conscientes do mesmo. Assim, a percepção se desenvolve como resposta desses sentidos aos estímulos espaciais e fornece à pessoa conhecimentos imediatos a respeito do que a cerca (TUAN, 1980). Para que o algo percebido tome significado ou conceito é preciso a reincidência de experiências (LIMA, 2007). A partir desta reflexão, pode-se afirmar que é através da percepção que se constrói o  conhecimento  do  espaço  adjacente  e  organiza  outro,  individualizado.  

Por  possuírem  órgãos  sensitivos  similares,  os  seres  humanos  compartilham percepções comuns. Assim, como membros da mesma espécie, estão limitados a perceber as  coisas  de  uma  determinada  maneira. Contudo,  sabe-se  que  a  forma  como  o  espaço  é percebido varia entre pessoas, culturas e condições sociais (Tuan, 1980).  O autor afirma então, que “A cultura  e  o  meio  ambiente  determinam  em  grande parte  quais  sentidos  são privilegiados” (Tuan, 1980, p. 284). Entende-se por cultura como a  soma  dos comportamentos,  dos  objetos,  dos  saberes,  das  técnicas,  dos conhecimentos  e  dos  valores acumulados  por um  grupo  socialmente organizado (CLAVAL, 2001). Na  atualidade,  aproximadamente 90%  das percepções  humanas  são  adquiridas visualmente  e  grande  parte  das  restantes  se  adquire através do tato e do ouvido (Gaspar, 2001).

A  exploração  do  espaço  se  inicia  com  o  nascimento,  sendo  que  através  das experiências corporais (ação) a criança constrói sua noção espacial. A conscientização do espaço pelo próprio corpo ocorre através de esquemas corporais e a lateralização. Estes, em conjunto, reúnem as funções motoras, a percepção do espaço imediato e a consciência de seu domínio lateral (direita e esquerda). Gradativamente a pessoa toma consciência de seu corpo e  então  passa  a  projetar  para  os  objetos  e  outras  pessoas  o que  comprovou  em  si mesma.  Através  da  ação  em  seu  espaço  vivido  e  da  reflexão  sobre  ele  a pessoa  chega  à abstração reflexiva ou a concepção do espaço e sua organização (Almeida;Passini, 1989).

Merleau-Ponty  (1999)  indica  que  não  existe  objeto  (espaço)  sem  sujeito  (pessoa)  e  toda experiência espacial se dá a partir de um referencial, uma vez que este é uma tentativa das pessoas de compreenderem os espaços que as cercam. Da relação entre pessoas e espaços emergem conceitos e sentimentos como lugar, paisagem, topofolia (sentimento de afeição para com um espaço) e apinhamento (sentimento de falta de espaço diante a existência de outras pessoas). O termo lugar é cotidianamente utilizado como sinônimo de espaço ou ambiente, mas de acordo com a Geografia Humanista se caracteriza como um espaço dotado de significado.Já a paisagem se configura como uma fração do espaço percebida pelos sentidos humanos.


REPRESENTAÇÃO ESPACIAL

Dotados  de  informações  perceptivas,  sensações  e  imaginações,  as pessoas  são  capazes  de representar  a  partir  de  imagens  mentais  o  espaço  percebido  ou imaginado.  Tal conceito de imagem mental remonta aos estudos de Lynch e sua obra "A imagem da cidade" (1960).  Assim,  a  representação é responsável  por  dar  significado  ao  algo percebido,  representando  fenômenos  naturais  e  sociais,  para a  compreensão  de acontecimentos ditos sobrenaturais e, principalmente, para perpetuar a consciência humana de mundo.

A  interposição  entre  o  que  é  representado  e  o  receptor,  a  quem  se  dirige  a representação, é feita através de  signos.  Este é o que enuncia algo a alguém, uma unidade portadora  de  sentido  constituída pelo significante  (forma)  e  o  significado  (conteúdo).  Os signos  podem  ser  além  de  ícones,  sons,  músicas, palavras,  gestos,  objetos,  rituais, elementos naturais entre outros que permeiam os lugares, contudo, seu caráter prescinde de uma  forma  de  linguagem  para  ser  comunicado. De acordo com Bakhtin (2002), a natureza do signo é ideológica, pois possui significado e remete a algo situado fora de si, exigindo que seja contextualizado para que ganhe significado em um grupo socialmente organizado.

A principal e mais comum forma de representação espacial acontece por meio dos mapas mentais, assunto abordado no texto “Cartografia pessoal: os mapas mentais” (http://parquedaciencia.blogspot.com.br/2013/10/cartografia-pessoal-os-mapas-mentais.html). 


PARA CONCLUIR

A conformação do mundo para uma pessoa ocorre por meio da percepção espacial, a qual é responsável por captar os estímulos espaciais e submete-los à consciência. Somam-se a isso as experiências vividas e a imaginação para que se possa formar, então, uma imagem mental. Tal imagem é passível de representação, tornando significativo o algo percebido. Os mapas mentais se configuram como um conjunto de signos referentes ao espaço que para serem compreendidos precisam ser contextualizados.Compreender como ocorrem os processos de percepção e representação espacial pode ser um recurso interessante para práticas de educação ambiental e a melhoria da qualidade de vida em diferentes escalas.

Para saber mais

O que é lugar?
http://parquedaciencia.blogspot.com.br/2013/09/o-que-e-lugar.html

REFERÊNCIAS 


ALMEIDA, R. D. de; PASSINI, E. Y. O  espaço geográfico:  ensino e representação. São Paulo, Ed. Contexto, 1989.

BAKHTIN,  M.  (Volochínov,  V.).  Marxismo  e  filosofia  da  linguagem.  São  Paulo, Ed.Hucitec, 2002.

CLAVAL, P.A geografia cultural. Florianópolis, Ed. da UFSC, 2001.

GASPAR,  J.  O  retorno  da  paisagem  à  geografia:  apontamentos  místicos.  Finisterra (72), 83-99, 2001.

LIMA, E. L.,  de.Do corpo ao espaço:  contribuições da obra de Maurice Merleau-Ponty à análise geográfica. Geographia (18) 65-84, 2007.

LYNCH, K. A imagem da cidade. Lisboa, Ed. Edições 70, 1960.

MALANSKI, L. M. Geografia humanista:percepção e representação espacial.Revista Geográfica de América Central (52), 2014.

MERLEAU-PONTY,  M.  Fenomenologia  da  percepção.  São  Paulo, Ed.  Martins Fontes, 1999.
TUAN, Y. Topofilia:  um estudo da percepção, atitudes e valores do meio  ambiente. São Paulo, Ed.Difel, 1980.


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