terça-feira, 15 de abril de 2014

EGITO ANTIGO - PRIMEIRA PARTE : A PRIMEIRA MULHER NO PODER

Por: Tiago Henrique da Luz

Figura 1: Estátua da rainha Hatshepsout,
com a indumentária cerimonial de um faraó,
 tradicionalmente utilizada apenas por homens.
 Fonte: http://www.metmuseum.org
O Egito Antigo é uma das culturas que exercem grande fascínio ainda nos dias de hoje.

A história egípcia está entre as mais extensas, mantendo suas características gerais preservadas, mesmo com a invasão de diversos povos, tais como hicsos (cerca de 1700 a.C.), persas (cerca de 525 a.C) e gregos (cerca de 332 a.C).

Neste momento vamos nos focar ao início da XVIII dinastia dos faraós egípcios (1550 a 1295 a.C.). Os invasores hicsos haviam sido expulsos há pouco tempo pelo faraó Ahmôsis, que deixou seu filho, Amenófis I, como herdeiro. No entanto, este último teria apenas filhas com sua mulher legítima. Assim, um filho bastardo o sucede, adotando o nome de Tutmés I (1530-1520 a.C.), o qual garante seu direito ao trono ao se casar com sua meio-irmã Ahmose.

Com a morte de Tutmés I, o problema da sucessão retorna, e sua filha Hatshepsout (ou Hatshepsut) deverá também desposar um filho ilegítimo do faraó, que adota o nome de Tutmés II (1520-1505 a.C.). Mas Hatshepsout, então com 15 anos, não aceita o casamento, acreditando ter sido preparada pelo pai para os negócios reais e sendo a única com direito ao trono – e não seu marido. Ao longo de todo o reinado de Tutmés II, a rainha Hatshepsout fará intrigas contra o faraó e, por vezes, ele terá de dominar revoltas, incluindo até mesmo uma tentativa de golpe de estado dos grupos mais nobres, quando estes apoiam o direito de Hatshepsout ao trono.

A rainha, numa tentativa para reafirmar seu direito ao trono, aproveitou uma cerimônia de comemoração dos trinta anos de reinado (que eram “contados desde o ano em que o soberano reinante foi proclamado herdeiro ao trono”) e ordenou a construção de dois grandes obeliscos, que pretendia levantar em Karnak. Sabendo das manobras de sua esposa-irmã, Tutmés II não permitiu a construção dos obeliscos e, sem herdeiros (já que teve apenas duas filhas com Hatshepsout), decide nomear como sucessor um de seus bastardos, Djehoutimés (BRISSAUD, 1978, p. 134-137).

Assim, se organiza uma cena para fazer parecer que “o próprio deus havia escolhido seu herdeiro”: em uma cerimônia no templo de Amon-Rá, diante de toda a Corte reunida, os sacerdotes que carregavam sobre os ombros “a barca sagrada de Amon-Rá” hesitam subitamente e, como que “impelidos por uma força invisível, percorrem toda a extensão da sala” parando somente diante do jovem sacerdote Djehoutimés, então com 16 anos (BRISSAUD, 1978, p. 136-137).

Menos de um ano mais tarde, o rei foi assassinado e seu sucessor toma o nome de Tutmés III e, assim como o pai, prepara-se para desposar a irmã mais velha, Nefrourê, para confirmar sua legitimidade real. Hatshepsout o impede, afastando o jovem faraó do poder pelos próximos 22 anos.

A rainha decide então construir para si um “gigantesco templo funerário” em Luxor, na margem ocidental do rio Nilo, dedicado ao “culto da personalidade” real e ao registro de seus feitos, durante seu reinado. Graças às inscrições neste templo, sabe-se que a rainha Hatshepsout empreendeu uma “célebre viagem ao país de Pount”, na região da atual Etiópia. (BRISSAUD, 1978, p. 138-141)

Figura 01: Templo de Hatshepsout. Fonte: Gallery.hd.org.

Para lá os egípcios levaram muitas mercadorias, como: “machadinhas, adagas e colares de pérolas cintilantes”. Trouxeram de lá diversas “matérias preciosas, como pedra, madeira, marfim e animais desconhecidos no Egito”, dentre eles, pássaros, uma girafa e até uma pantera! (BRISSAUD, 1978, p. 141-142).

Segundo contam as inscrições, a rainha também mandou “plantar árvores do país de Pount no pátio debaixo de seu templo funerário” e, de fato, os arqueólogos contemporâneos encontraram “tocos de árvores de mirra envolvidos na terra que trouxeram para sustentar-lhes as raízes” (BRISSAUD, 1978, p. 142-143).
Com o tempo, Tutmés III reúne o apoio dos oficiais do exército, descontentes com a política pacífica de Hatshepsout, pretendendo levar tropas para a região da atual Síria, onde as populações começavam a se mobilizar contra o Egito, que neste momento controlava a região.

Não considerando Tutmés III como uma ameaça, Hatshepsout permite que ele se case com a meio-irmã Nefrourê e, no vigésimo segundo ano do reinado da faraó, permite também que ele conduza o exército para a Ásia.

Pouco tempo mais tarde, a atual faraó morre, “sem dúvida assassinada” e, após um curto período de agitações, Tutmés III é coroado faraó, adotando medidas para reprimir a revolta dos apoiadores de sua tia Hatshepsout. Não contente em tomar-lhe o poder supremo, decide também lançá-la no esquecimento: manda raspar o nome da soberana dos monumentos e substituir pelo seu, de seu pai e de seu avô. 

Ironicamente, ao cobrir com “alvenaria a base dos obeliscos” em Karnak, suas inscrições se preservaram, o que permitiu que, ao invés, sua história tão singular pudesse ser conhecida mesmo depois de 3500 anos! (BRISSAUD, 1978, p. 145)

PARA SABER MAIS...


Museu Egípcio e Rosacruz em Curitiba: http://www.amorc.org.br/museu-egipcio.html


REFERÊNCIAS

BRISSAUD, Jean-Marc. O Egito dos faraós. Tradução de Luiza Tertulino Vieira. Rio de Janeiro: Otto Pierre, 1978.

FERREIRA, L. S. Cronologias – Dinastias. Disponível em: <http://antigoegito.org/cronologia-dinastias/>. Acesso em: Março 2014.

FUNARI, P. P. A., Org; GLAYDSON, J., Org,; MARTINS, A. L., Org. História Antiga: Contribuições Brasileiras. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2008.
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