quinta-feira, 17 de abril de 2014

ENTENDA A CRISE NA CRIMÉIA

Por: Lawrence Mayer Malanski


Figura 01 : Pintura em uma cidade da Criméia na qual o mapa da região aparece pintado com as cores russas.
 Fonte: http://exame.abril.com.br. Acesso em: 07 abr. 2014.

1. RÚSSIA E UCRÂNIA: CONTEXTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO

A Criméia era uma república autônoma da Ucrânia localizada numa península banhada pelo Mar Negro, a oeste da Rússia, na Europa Oriental. Desde o final de 2013, a região passa por uma crise política, sendo que em março de 2014 a população local votou em um referendo pela anexação do seu território à Rússia. Isso deu início a uma crise internacional envolvendo a União Europeia, Estados Unidos (EUA), Ucrânia e Rússia.

A região da Criméia possui aproximadamente 2 milhões de habitantes espalhados em 26.100 km² (pouco maior do que o Estado de Sergipe) e tem o russo como língua oficial. A capital da república é a cidade de Simferopol, que conta com cerca de 350 mil pessoas. Nessa cidade, durante a Segunda Guerra Mundial, aconteceu um dos maiores massacres civis do período, quando os nazistas mataram mais de 22 mil de seus habitantes na guerra contra a União Soviética.

Figura 02: Cartograma com a localização da Península da Criméia e grupos étnicos da região. Fonte: http://www.forte.jor.br. Acesso em: 07 abr. 2014.

De 1922 a 1991 a Ucrânia e mais 14 países, incluindo a Rússia, formaram a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). No entanto, a relação entre o povo russo e o ucraniano durante o período soviético nunca foi amigável. Entre 1932 e 1933, por exemplo, morreram de fome na República Soviética da Ucrânia aproximadamente 7 milhões de ucranianos e cossacos devido a um processo de coletivização e confisco da produção agrícola implantado pelo líder soviético Josef Stalin. Esse genocídio causado pela fome ficou conhecido como holodomor, “a grande fome da Ucrânia” e “o holocausto soviético”.

Figura 03: Mapa dos países que formavam a URSS.
 Fonte: http://noticias.bol.uol.com.br. Acesso em: 07 abr. 2014.

Desde o fim e a dissolução da URSS em 1991, a Ucrânia existe como um país independente. Sua área (603.000 km²) é um pouco maior do que o Estado de Minas Gerais. Sua população soma atualmente quase 48 milhões de habitantes, destes aproximadamente 78% são de origem ucraniana, 17% são russos e o restante de outras etnias. A economia do país é baseada na produção agropecuária, exploração de recursos minerais e indústria bélica. As metalúrgicas são desenvolvidas e as mais importantes do setor industrial ucraniano.

Já a Rússia é o país mais extenso do mundo, com mais de 17 milhões de quilômetros quadrados localizados parte na Europa e parte na Ásia e 142 milhões de habitantes. Após abandonar o socialismo do período soviético e adotar o capitalismo, a economia russa vem crescendo sustentada pelas exportações de gás natural, derivados de petróleo, minerais, máquinas pesadas e equipamentos militares. 


2. A CRISE NA CRIMÉIA

Após o fim da URSS, no período entre 1991 e 1999, as economias de Rússia e Ucrânia passaram por recessões. Na Ucrânia a crise foi maior, sendo que o Produto Interno Bruto (PIB) do país encolheu 60% e a inflação atingiu seis dígitos. Insatisfeitos com a situação econômica, a população ucraniana organizou greves e protestos. Desde 2000, no entanto, tanto a economia ucraniana quanto a russa foram estabilizadas e os PIB’s passaram a crescer, ainda que pouco.

Em 2004, o então primeiro-ministro Viktor Yanukovych foi declarado presidente da Ucrânia após vencer uma eleição comprovadamente fraudada. Sabendo disso, a população do país passou a apoiar o candidato derrotado da oposição Viktor Yushchenko no que ficou conhecido como Revolução Laranja. Isto trouxe Yuschchenko à presidência, enquanto Yanukovych tornou-se oposição. Pelo modo como lidou com o impasse envolvendo o desabastecimento de gás natural proveniente da Rússia no inverno de 2009, Yuschchenko perdeu as eleições presidenciais de 2010 para seu opositor Yanukovych, o mesmo acusado de fraudar a votação em 2004.

Em 2007, Ucrânia e Polônia foram escolhidas para sediar a Eurocopa de 2012, o principal campeonato de futebol de seleções europeias. Apesar de sediar conjuntamente o evento, esses dois países eslavos e vizinhos apresentavam características econômicas diferentes. A Polônia entrou para o bloco da União Europeia (UE) em 2004 e, desde então, sua economia vem apresentando melhoras significativas devido, sobretudo, à instalação de indústrias globais proveniente dos países da Europa Ocidental.Enquanto isso, o governo ucraniano mantinha importantes relações econômicas com a Rússia, exportando para o país vizinho minerais como o urânio (utilizado na Rússia para fins energéticos e militares),commoditiesagrícolas e equipamentos militares. Pode parecer estranho, mas todos os setores militares russos são dependentes de empresas ucranianas em decorrência das relações econômicas do período soviético. Essas empresas desenvolvem, produzem e mantém, por exemplo, os mísseis balísticos intercontinentais russos SS-18. 

Figura 04: Míssil russo SS-18 concebido e produzido na Ucrânia.
 Fonte: http://militaryrussia.ru. Acesso em: 07 abr. 2014.
No entanto, parte da população ucraniana era e ainda é favorável a uma aproximação maior do seu país com a UE como fez a Polônia. Isto levou a realização de grandes protestos populares a partir do final do ano de 2013, sobretudo na capital Kiev.  Os protestos foram reprimidos com violência pelo governo de Yanukovych, contrário à aproximação ucraniana com a UE e favorável ao estreitamento dos laços econômicos com os russos, deixando dezenas de mortos.Porém, diante do aumento das pressões internas e externas, Yanukovych foi destituído da presidência no dia 22 de fevereiro e fugiu para a Rússia.No seu lugar assumiu interinamente OleksanderTurchynov.

Figura 05: Protestos em Kiev contra o presidente Yanukovych.
 Fonte: www.rtp.pt. Acesso em: 07 abr. 2014.
Uma possível aproximação da Ucrânia com a UE não foi bem vista pelos russos, que ainda pretendem retomar parte do seu espaço de influência estratégica do período soviético. O estopim desse embate entre a posição ucraniana entre a Europa Ocidental e a Rússia foi a Península da Criméia. Aproveitando-se dos violentos protestos ocorridos na Ucrânia a partir de 2013, o governo russo de Vladimir Putin e tropas pró-Rússia invadiram em 2014 a Península da Criméia com o pretexto de proteger a população local de origem russa. No entanto, sabe-se que essa península se localiza numa porção estratégica de toda a região e possibilita acesso marítimo ao Mar Mediterrâneo, Oceano Atlântico, Canal de Suez, Mar Vermelho, Oceano Índico etc. Existem mais de 200 bases militares na Criméia (entre marinha, exército e força aérea) e todas foram tomadas da Ucrânia pela Rússia. Além disso, todo o material bélico ucraniano dessas bases, como navios, tanques e aviões, passaram para o controle de Moscou. Nesse contexto, a Ucrânia ainda reivindica a posse de quase 60 navios tomados de sua marinha de guerra, entre outros equipamentos.

Figura 06: Soldados não identificados pró-Rússia infiltrados na Criméia
. Fonte: http://noticias.uol.com.br. Acesso em: 07 abr. 2014.
Após a invasão da Criméia, os russos organizaram um plebiscito na região para verificar o interesse da população em pertencer à Rússia, mostrando ao mundo uma justificativa de suas ações. O resultado revelou que mais de 95% dos votantes eram favoráveis à anexação da Criméia ao governo de Moscou. Desde então, os russos intensificaram a ocupação militar da península. Um fato marcante da tomada da posse do território foi a visita do Primeiro Ministro russo Dmitri Medvedev dia 31 de março de 2014 à cidade de Simferopol, o que gerou protestos de alguns governantes de países ocidentais.

Alguns países do ocidente, incluindo Estados Unidos e da União Europeia, ofereceram ajuda econômica e militar à Ucrânia e adotaram uma série de medidas financeiras contra políticos russos envolvidos. Forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN - criada no contexto da Guerra Fria para fazer frente ao Pacto de Varsóvia) foram deslocadas para a região. Os Estados Unidos enviaram caças e tropas para a Polônia e Lituânia. Além disso, caças franceses, britânicos e tchecos foram oferecidos como ajuda para conter um possível expansionismo russo na Europa. Também, o governo francês se manifestou afirmando que se os russos passarem dos limites poderá utilizar a força contra eles.Antigas repúblicas da URSS, como Estônia, Letônia e Lituânia temem por serem possíveis alvos russos num futuro próximo. Em contrapartida, os russos reforçaram suas tropas na Bielorrússia. Estimativas da OTAN apontam para um aumento de 40 mil soldados russos próximos à fronteira com a Ucrânia.


3. PARA CONCLUIR

Atitudes expansionistas como a tomada pela Rússia contra a Ucrânia amedrontam os países europeus, pois remetem ao período de expansão nazista antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Assim, elas ameaçam a relativa tranquilidade existente entre as fronteiras do Velho Mundo desde o fim da Guerra Fria.

A Rússia vem buscando retomar parte de sua importância estratégica perdida com o fim da URSS e ocupar espaços deixados pela recente perda de influência global do governo dos EUA. Assim, o país euroasiático vem procurando se mostrar ao mundo como uma potência emergente, sediando, por exemplo, as Olimpíadas de Inverno em Sochi e a Copa do Mundo FIFA em 2018. Além disso, os russos fazem uso de dois trunfos principais: suas exportações de gás natural para o restante da Europa (que por causa do inverno rigoroso é dependente do gás russo para aquecimento) e seu enorme poderio militar herdado da URSS. O arsenal de guerra russo contém milhares de armas nucleares, bombardeiros estratégicos intercontinentais, submarinos atômicos, exército numeroso etc. Apesar de muito desse arsenal estar defasado e antiquado, ainda impõem medo e respeito a qualquer outro país, inclusive aos Estados Unidos. 

Não se pode afirmar que uma nova Guerra Fria está começando, pois tanto os países do Ocidente quanto a Rússia estão em contextos econômicos e sociais diferentes.  A Rússia abandonou o antigo sistema socialista e lança-se em uma expansão estratégica e capitalista.

Quanto à Ucrânia, fica evidente uma divisão interna do país entre os que apoiam laços econômicos com a UE e os que apoiam uma aproximação com os russos. Também, outras regiões da Ucrânia onde predominam a etnia russa podem aproveitar o momento para declarar independência ou anexação à Rússia.Além disso, o governo de Putin não quer perder para a UE um grande parceiro econômico, estratégico e militar como a Ucrânia. Possivelmente, nenhuma medida drástica será tomada contra o governo de Moscou diante da anexação da Criméia a seu território, no entanto, precisam-se acompanhar com atenção os próximos passos dos russos em sua provável expansão e como o ocidente reagirá a isso.


REFERÊNCIAS

BBC Brasil. Como Putin está tentando reconstruir a URSS. Disponível em: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/03/140328_putin_urss_pai.shtml. Acesso em: 07 abr. 2014.

BBC Brasil. Destituição de presidente agrava crise na Ucrânia; entenda. Disponível em:http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/02/140221_ucrania_entenda_crise_pai.shtml. Acesso em: 07 abr. 2014.

BBC Brasil. O que está por trás dos protestos na Ucrânia?Disponível em:http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/12/131215_ucrania_protestos_geopolitica_mm.shtml. Acesso em: 07 abr. 2014.

BBC Brasil. Ucrânia tem novo presidente. Disponível em: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/02/140223_ucrania_presidente_interino_ms.shtml. Acesso em: 07 abr. 2014.

Notícias UOL. O plano que permitiu à Rússia a anexação secreta da Criméia. Disponível em: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2014/03/19/o-plano-que-permitiu-a-russia-a-anexacao-secreta-da-crimeia.htm. Acesso em: 07 abr. 2014.

Poder Aéreo. A dependência russa em relação a equipamentos militares de origem ucraniana. Disponível em: http://www.aereo.jor.br/2014/04/07/a-dependencia-russa-em-relacao-a-equipamentos-militares-de-origem-ucraniana/. Acesso em: 07 abr. 2014.

Poder Aéreo. Governo tcheco oferece caças Gripen para proteger países da OTAN que fazem fronteira com a Ucrânia. Disponível em: http://www.aereo.jor.br/2014/03/25/governo-tcheco-oferece-cacas-gripen-para-proteger-paises-da-otan-que-fazem-fronteira-com-a-ucrania/. Acesso em: 07 abr. 2014.

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