quarta-feira, 14 de maio de 2014

CONTINENTES E RAÇAS – PARTE 1

Por: Marcelo Domingos Leal

Figura 01 – “Raças” Humanas
Fontes: biologiaprofena.blogspot.com.br/



A HISTÓRIA DAS “RAÇAS”

Desde a Antiguidade, a mentalidade ocidental convive com a ideia de que os seres humanos estão divididos em “raças”. Mas foi no decorrer do século XIX, quando os países europeus necessitavam justificar seus projetos de expansão imperialista, que uma grande parte dos seus recursos intelectuais foram utilizados em definir e hierarquizar as “raças” que compõem nossa espécie.

Para classificar a variedade de fenótipos humanos, muitos cientistas trabalharam exaustivamente, e sua influência deu credibilidade à afirmação de que os brancos de origem europeia ocupariam os estágios mais elevados do desenvolvimento, em detrimento dos não-brancos, invariavelmente identificados com o atraso.

Muitas pessoas ganharam celebridade ao expor o resultado de suas pesquisas que, de alguma forma, reforçavam um suposto determinismo biológico aplicado às sociedades humanas, um darwinismo social. Para auferir crédito às asserções, executavam tendenciosamente análises da anatomia de grupos humanos, utilizando, inclusive, instrumentos da antropologia criminal da época, como a craniometria, por exemplo, para classificar os povos e estabelecer correlações entre aparências físicas e aptidões. 

As classificações da diversidade humana, baseadas na morfologia física e no conceito de “raça”, sobrepunham igualmente aspectos do comportamento e formas de pensar e sentir (aspectos sócio-culturais). O evolucionismo darwinista inspirara, inicialmente, uma hierarquização da diversidade humana e das “raças” em que a “raça branca” estaria no ápice da escala de evolução, devido à sua “superioridade” tecnológica e, acreditava-se, moral (etnocentrismo evolucionista que, na antropologia social ou cultural, teve também grande influência).

A ciência do século XIX dava então ao racismo o fundamento que lhe permitia justificar a escravização criminosa de milhões de africanos e índios, e autorizava ao homem branco a contradizer de modo convincente o 1.º artigo da "Declaração Universal dos Direitos do Homem" de que os seres humanos nascem livres e iguais. Entre os resultados práticos da noção de que a humanidade se divide em raças, e que algumas são superiores e outras inferiores, está o extermínio de 6 milhões de judeus pelos nazistas nas décadas de 1930 e 1940. 

Entretanto, com o progresso da genética e da biologia molecular, biólogos e antropólogos observaram que nenhum gene humano é específico de uma raça e que todas as populações têm mais ou menos a mesma carga gênica. As suas conclusões são de que nem a genética e nem bioquímica fornecem qualquer subsídio para justificar a existência do conceito "raças humanas". A pequena diferença genética entre os seres humanos (que inclui poucos genes que resultam na aparência física como a cor da pele, largura ou comprimento do nariz, pregas das pálpebras, tipo de cabelo, etc.), em contrapartida a grande quantidade de genes compartilhados pelas “raças” não justifica a classificação da sociedade em raças. Porém, não podemos deixar de citar que entre um europeu, um africano e um asiático existem diferenças físicas que qualquer um pode enxergar. Essa diversidade apareceu ao longo do tempo, à medida que o homem precisou se adaptar aos diversos ambientes e regiões ao qual foi dominando durante os milênios. Ao chegar e se estabelecer num local mais frio e pouco ensolarado, por exemplo, uma pele mais clara ajudava a aproveitar melhor os raros raios solares – importantes, entre outras coisas, para o corpo produzir vitamina D –, e um nariz mais comprido ajudava a aquecer o ar antes de chegar às vias respiratórias. Dessa forma, toda essa população clareava sua pele ou “adquiria” narizes mais afilados e longos, geração apos geração, por meio da seleção natural e sexual. Então, essa pequena quantidade de genes diferentes está geralmente ligados à adaptação do indivíduo aos diferentes ambientes ao qual este foi exposto.

Mas, apesar das diferenças físicas, todos eles tiveram os mesmos ancestrais, que, provavelmente, viviam na África há, no mínimo, 150 mil anos. De lá, o homem começou a invadir outras regiões e continentes. Primeiro, o Oriente Médio, depois, a Ásia, a Europa e a Oceania. Por último, chegou aqui na América, quando a variedade de tipos humanos já era um fato.

Assim, logo depois da Segunda Guerra Mundial, portanto após a derrota de Hitler e de suas ideias, foram realizados encontros, com o apoio institucional da UNESCO, em que participaram cientistas sociais e geneticistas, os quais, diante das evidências, decidiram elaborar a "Declaração Sobre Raça" em que aparecia a afirmação de que "raça é menos um fato biológico do que um mito social". 

Desde então, alguém que defenda tal coisa corre o risco de ser visto como quem procura chifre em cabeça de cavalo, porque a evolução da pesquisa científica alcançou outro paradigma: há uma única raça humana. Como consequência desse progresso, a discriminação aos não-brancos deixou de ter respaldo científico e passou a ser vista como um produto sócio-econômico. 

Apesar de que esse progresso da ciência contemporânea não é contínuo, ele teve, tem e terá alguns retrocessos. Um exemplo destes retrocessos foi a publicação em 1994 do livro intitulado "A Curva do Sino" (The Bell Curve) em que os autores, sem apresentar nada de novo, tentavam demonstrar a inferioridade nata dos negros através do cruzamento de estatísticas geradas por testes de inteligência no continente africano. Seus resultados são tão absurdos que a simples citação de alguns nomes de negros que se destacaram no cenário intelectual, como Cheik Anta Diop, Nelson Mandela, Milton Santos, Joaquim Barbosa, Malcon X ou Martin Luther King, já seria suficiente para jogar por terra os seus pressupostos. Um dos argumentos deste livro está relacionado também com os testes de Q.I. norte-americanos, que geram uma forte discussão, pois nestes os negros norte-americanos, historicamente obtêm cerca de 15 pontos a menos que os brancos. Porém, devemos ressaltar que estes números podem estar associados a condições familiares, sócio-econômicas e estruturais, e não de capacidade neural.

Embora cientificamente inadequado, já que o conceito não corresponde a nada que exista na natureza, a ideia de raça sobrevive como construção ideológica e cultural. Assim, não pode haver dúvida que o uso da expressão "raça" continua representando uma concepção social, política ou cultural, mesmo que nunca mais seu significado denote um produto da evolução natural da espécie humana.

Na atualidade não existe nenhuma sociedade ou grupo social que não possua a mistura de etnias diferentes. Há exceções como pouquíssimos grupos indígenas que ainda vivem isolados na América Latina ou em algum outro lugar do planeta. Mas, de modo geral, as sociedades contemporâneas são o resultado de um longo processo de miscigenação de suas populações, cuja intensidade variou ao longo do tempo e do espaço.
O conceito “miscigenação” pode ser definido como o processo resultante da mistura a partir de casamentos ou coabitação de um homem e uma mulher de etnias diferentes. A miscigenação ocorre da união entre brancos e negros, brancos e amarelos e entre amarelos e negros. Como visto nos parágrafos iniciais deste texto, este conceito de “raças” surgiu no século 18 e 19, apoiado por antropologistas, naturalistas, filósofos, entre outros homens ligados a ciência. No Brasil este tema foi desenvolvido por vários cientistas e escritores, e dentre eles o antropólogo Gilberto Freyre (sociólogo década de 30) e Darcy Ribeiro (década de 70). Freyre, Ribeiro, entre outros diziam que a cultura e a sociedade brasileiras foram constituídas a partir das influências culturais das “três raças”: europeia, africana e indígena.

Freyre ficou famoso ao lançar o livro “Casagrande & Senzala”, onde destaca a importância da casa grande na formação sociocultural brasileira, bem como a da senzala que complementaria a primeira. Casa Grande & Senzala dá muita ênfase a questão da formação da sociedade brasileira, tendo em vista a miscigenação que ocorreu principalmente entre brancos, negros e índios. Porém, segundo Clóvis Moura, "Gilberto Freyre caracterizou a escravidão no Brasil como composta de senhores bons e escravos submissos". O mito do bom senhor de Freyre seria uma tentativa no sentido de interpretar as contradições do escravismo como simples episódio sem importância, e que não teria o poder de desfazer a harmonia entre exploradores e explorados durante aquele período. Contudo, esse mito não é compartilhado por diversos críticos, pois minimiza a dominação violenta provocada pela colonização portuguesa sobre os povos indígenas e africanos, colocando a situação de colonização como um equilíbrio de forças entre os três povos, o que de fato não houve.

O geneticista Sérgio Pena, autor do livro "Humanidade Sem Raças?" (Publifolha, 2008), propõe, já no trecho de abertura do livro, que pode ser lido abaixo, a necessidade da "desinvenção" imediata do conceito de "raças". 

"Perversamente, o conceito tem sido usado não só para sistematizar e estudar as populações humanas, mas também para criar esquemas classificatórios que parecem justificar o status quo e a dominação de alguns grupos sobre outros", afirma o autor. "Assim, a sobrevivência da ideia de raça é deletéria por estar ligada à crença continuada de que os grupos humanos existem em uma escala de valor."


VOLTA AO MUNDO

A humanidade partiu da África para ocupar todo o planeta 

1 - Evidências arqueológicas indicam que o Homo sapiens surgiu na África há pelo menos 200 mil anos. Cem mil anos atrás, ele começou a se espalhar pelos outros continentes. O primeiro destino foi o Oriente Médio.
2 - Entre 70 mil e 50 mil anos atrás, surgiram duas novas rotas de migração do Homo sapiens: uma população seguiu do Oriente Médio para o restante do continente asiático e a Austrália. O outro grupo rumou em direção à Europa.
3 - No nordeste da Ásia começou a viagem que levaria o homem a ocupar a última região do planeta: a América. Estima-se que isso possa ter ocorrido até 30 mil anos atrás, embora os fósseis mais antigos achados no continente americano não ultrapassem 15 mil anos.

Na parte 2 deste texto, que será publicado no próximo mês, entraremos em uma breve discussão sobre a diversidade humana, que erroneamente é descrita como raça.

REFERÊNCIAS


Kaufman, J. S., "How Inconsistencies in Racial Classification Demystify The Race Construct in Public Health Statistics". Em: Epidemiology, 10:108-11, 1999.

A Fantasia das Três Raças Brasileiras. Acesso em: 2014. Disponível em: www.brasilescola.com/sociologia/o-brasil-varias-cores.htm

Gates, H. L., "The Science of Racism". Acesso em: 2014. Disponível em: www.theroot.com/id/46680/output/print

Revista Espaço Acadêmico. Acesso em: 2014. Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/060/60carvalho.htm
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Um comentário:

  1. Ótimo texto, ajudará muito na minha pesquisa, obrigado, inclusive pelas referências.

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