terça-feira, 17 de junho de 2014

A RELAÇÃO ENTRE RECURSOS NATURAIS E MATRIZ ENERGÉTICA

Por: Lawrence Mayer Malanski


Figura 1- Mina de carvão na China.
Fonte: mineracionempesquisa.blogs
pot.com
 
A busca por fontes de energia sempre foi uma preocupação das sociedades humanas. Ao longo do tempo, o desenvolvimento dessas sociedades sempre esteve associado às formas de obtenção de energia. A partir da Revolução Industrial (1760-1840) o consumo de energia aumentou significativamente, sobretudo as produzidas a partir de hidrocarbonetos, e, atualmente, com questões ambientais em debate, buscam-se formas “limpas” de obtenção de energia a partir de recursos renováveis.




O conjunto de fontes de energia possíveis de serem extraídas e distribuídas denomina-se matriz energética. A matriz energética de uma região ou país depende da disponibilidade de recursos naturais ou de acordos econômicos de importação de matérias primas. A disponibilidade de recursos muda no espaço e dentro de um mesmo país pode variar de uma região para outra. Algumas regiões possuem rios com grande volume d’água, outras estão mais sujeitas a ação dos ventos, enquanto outras ainda possuem grandes reservas de petróleo, carvão mineral e gás, por exemplo. Comparando as matrizes energéticas do Brasil, Japão, China e Dinamarca nota-seque esses países possuem diversos recursos naturais e se apropriam deles de modo diferente para a produção de eletricidade e de combustíveis.
Figura 2: Gráfico da matriz energética mundial, 2004.
Fonte: /www.revistaopinioes.com.br

A matriz energética brasileira

Devido a sua grande extensão territorial e diversidade de paisagens, o Brasilé um país com ampla variedade de recursos energéticos. No entanto, para a transformação desses recursos em energia elétrica, utiliza-se, sobretudo, a força dos rios, responsáveis por aproximadamente 65% da eletricidade gerada no país. As bacias hidrográficas brasileiras oferecem grande potencial hidrelétrico que ainda pode ser explorado, pois seus rios correm principalmente sobre planaltos e possuem volume e velocidade de escoamento adequados à geração de eletricidade. Contudo, o regime dos rios está sujeito às condições do clima e as interferências humanas. Assim, pode ocorrer durante determinadas épocas de seca a diminuição da produção de eletricidade, ocasionando apagões. Para amenizar esse problema, vem se investindo no Brasil em usinas termoelétricas a base de petróleo, carvão mineral e álcool que são acionadas durante o período de estiagem, mas com custo ambiental e financeiro muito mais elevado. Está em obras também o terceiro reator nuclear de Angra dos Reis, comprado da Siemens na década de 1970, com previsão para entrar em operação apenas em 2018. No entanto, a energia nuclear corresponde a uma pequena parcela da matriz energética brasileira.

Figura 3: Hidrelétrica de Itaipu, no Rio Paraná.
Fonte: www.iguassuexpresshotel.com.br
Além da produção de eletricidade, os recursos energéticos são utilizados nos transportes e, nesse ponto, o Brasil ainda é muito dependente do petróleo. Pouco se investe em energias alternativas como a eletricidade, sendo que o próprio etanol e o biodiesel deixaram de ser economicamente vantajosos frente à gasolina e ao diesel tradicional. Outras alternativas de transporte nas cidades, como o uso da bicicleta e o transporte público de massa, também recebem poucos investimentos diante do transporte individual (carros). O resultado disso é a dependência de combustíveis fósseis para a mobilidade urbana e a poluição atmosférica, sobretudo, das grandes cidades.


A matriz energética japonesa

Com uma grande densidade demográfica e grande quantidade de indústrias, o Japão se localiza em um arquipélago vulcânico no Oceano Pacífico. A origem vulcânica tornou o subsolo japonês pobre em recursos energéticos como o petróleo e o gás natural. Além disso, nos poucos rios com potencial hidrelétrico do país já foram construídos usinas para a geração de eletricidade e não há mais potencial para a instalação de novas usinas. Nesse contexto, o dilema japonês é como produzir energia suficiente para abastecer sua grande demanda de modo contínuo e barato em um local carente de recursos energéticos. A solução encontrada foi a geração de eletricidade por meio de usinas nucleares a base de plutônio e urânio e termoelétricas que funcionam com derivados do petróleo e carvão mineral importados. As usinas nucleares japonesas produzem muita energia a um preço relativamente baixo e são consideradas seguras em situações normais, sendo que por lá existem mais de cinquenta reatores nucleares em funcionamento atualmente. 

No entanto, após fevereiro de 2011, quando um grande tsunami atingiu a central nuclear de Fukushima, o uso da energia nuclear no país vem sendo discutido. O governo japonês se comprometeu, a princípio, a substituir grande parte das usinas nucleares por outras fontes menos perigosas, como a eólica e a maremotriz, o que não aconteceu até hoje. Ainda, o governo chegou a conclusão de que a energia nuclear é de fundamental importância para o abastecimento básico da população e autorizou a construção de novos reatores seguindo critérios mais rígidos de segurança. O problema é que no Japão, essas usinas nucleares precisam resistir a constantes terremotos e estão sujeitas a eventos catastróficos como grandes tsunamis, o que não faz não parecer lógico a construção de várias delas em um país pequeno, com grande densidade demográfica e geologicamente instável. No entanto, fatores econômicos e a necessidade superam o medo de um grande desastre, ao menos no pensamento do governo japonês.

Figura 4: Central Nuclear de Fukushima, Japão.
Fonte: ipressglobal.com.

Com relação aos transportes, o Japão é um dos países que mais investem em veículos elétricos e híbridos no mundo. Contudo, essa eletricidade ainda provém de centrais nucleares ou termoelétricas. 

Quase todo o petróleo utilizado no Japão é importado, principalmente, do Irã, e o uranio e plutônio usados nas usinas nucleares vêm do Canadá, da África do Sul, França e Austrália, o que torna o país dependente economicamente e frágil do ponto de vista estratégico e geopolítico.

Figura 5: Distribuição dos reatores nucleares pelo mundo.
Fonte: www.terra.com.br. Acesso em:12 mai. 2014.

A matriz energética chinesa

Aproveitando-se de suas enormes reservas de carvão mineral extraídos de minas por todo o país, a China sustentou seu excepcional crescimento econômico das últimas décadas e o abastecimento de sua gigantesca população nesse combustível fóssil. O problema é que a queima do carvão mineral é extremamente poluente e os níveis de poluição nas cidades chinesas alcançaram níveis insuportáveis. Isso colocou os chineses em primeiro lugar no ranking mundial de países poluidores, com quase 20% de toda a poluição anual. No entanto, a China, assim como o Brasil, possui grande variedade de recursos energéticos disponíveis, incluindo hidrelétrico. Cientes dos problemas ambientais causados pela queima do carvão mineral, os chineses tornaram-se os maiores investidores em energias limpas e renováveis da Terra, como a solar e a eólica. Além disso, construíram a maior hidrelétrica do mundo no rio Yang-Tsé, superando em tamanho a binacional Itaipu. Mas o desafio de reduzir a emissão de poluentes é difícil e ainda está longe de ser superado por lá.

Figura 6: Poluição do ar em Harbin, China.
Fonte: www.noticias.terra.com.br. 

Além do investimento em energias “limpas” na matriz energética do país, os chineses são os maiores exportadores de painéis solares e turbinas eólicas do mundo, conseguindo vender esses equipamentos no mercado internacional com preço até 30% mais barato do que os concorrentes americanos e europeus. Contudo, essa tecnologia “limpa” ainda não chegou aos veículos chineses, que utilizam quase que em sua totalidade derivados do petróleo como combustível e são responsáveis pela maior parte da poluição das cidades. A ideia chinesapara reduzir esse problema é diminuir os índices de poluição dos carros novos e a quantidade de enxofre na gasolina, além de ampliar as pesquisas em biocombustíveis, inclusive, com parceria com empresas brasileiras. 


A matriz energética dinamarquesa

A Dinamarca é um pequeno país europeu um pouco maior do que o Estado do Espírito Santo e apenas 5 milhões e 600 mil habitantes (aproximadamente), mas sua matriz energética “limpa” é modelo para a Europa e todo o mundo. A meta do país é que até 2050 100% da energia produzida tenha origem “limpa” e renovável, eliminando as emissões de dióxido de carbono no setor. Atualmente, cerca de 45% da energia dinamarquesa é considerada “limpa” e proveniente de fontes renováveis. A principal aposta do país é na produção eólica offshore, ou seja, com as centrais eólicas instaladas no mar, além da energia solar. Por se localizar em uma Península (da Jutlândia), a Dinamarca possui extenso litoral (7.300 km), com grande incidência de ventos e, portanto, sua localização é extremamente favorável à geração de energia eólica.

Nos transportes, onde a necessidade de combustíveis fósseis ainda é grande, os incentivos são dados aos veículos movidos a eletricidade. O excesso de energia pode ser armazenado nos carros, que podem fornecê-la ao sistema elétrico em épocas de pouco vento.

Figura 7 – Estação eólica na costa dinamarquesa.
Fonte: http://www.dw.de 

Conclusão

A matriz energética de um país é o reflexo da disponibilidade dos recursos naturais e investimentos econômicos no setor de energia. No caso brasileiro, a matriz energética é variada, mas ainda predominam as hidrelétricas e os combustíveis fósseis. Um país com possibilidades diversas de produção de energia destaca-se dos demais por não ser dependente de apenas alguns recursos, como é o caso do Japão, que gasta muito para importar petróleo, gás natural, urânio e plutônio a fim de suprir sua carência de recursos energéticos. No entanto, é preciso investimentos econômicos em fontes variadas de energia para que possam ser aproveitadas. Já a China possui enormes reservas de carvão mineral, mas é consciente de que sua queima é altamente poluente. Assim, os chineses vêm investindo muito em fontes energéticas consideradas “limpas” e renováveis, mas ainda tem um grande desafio em alterar sua matriz energética diante de sua grande demanda. A Dinamarca, por sua vez, aparece como um país modelo em matriz energética “limpa”, pois tem um plano ambicioso de produzir toda sua energia a partir de fontes renováveis e pouco poluentes. No entanto, cabe ressaltar que a Dinamarca é um país pequeno e com pouca população se comparado ao Brasil e à China, por exemplo.


Referências


Deutsche Welle. Dinamarca estabelece meta de energia 100% limpa até 2050.
Disponível em: http://www.dw.de/dinamarca-estabelece-meta-de-energia-100-limpa-até-2050/a-17613274.
Acesso em: 09 mai. 2014.

Nova Escola. Entenda a matriz energética brasileira.
Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/geografia/pratica-pedagogica/energia-brasil-pais-presente-matriz-energetica-586688.shtml
Acesso em: 09 mai. 2014.

Opera Mundi. Japão enfrenta dilemas para adotar matriz energética renovável. 
Disponível em: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/24207/japao+enfrenta+dilemas+para+adotar+matriz+energetica+renovavel.shtml
Acesso em: 09 mai. 2014.

Revista Planeta. O poluidor mor se torna líder das energias renováveis.
Disponível em: http://revistaplaneta.terra.com.br/secao/meio-ambiente/china-o-poluidor-mor-se-torna-lider-das-energias-renovaveis.
Acesso em: 09 mai. 2014.


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