terça-feira, 24 de junho de 2014

AS COSMOGRAFIAS DA AMÉRICA!

Por: Luiza Valeria Canales Becerra

Os descobrimentos geográficos realizados por navegantes portugueses na segunda metade do século XV e o descobrimento da América em 1492 transformaram completamente o imaginário geográfico europeu. As fronteiras do mundo conhecido se alargaram rapidamente e traduziram-se em uma impressionante obra cartográfica, que no curso de algumas décadas transformou-se de maneira vertiginosa, abrindo a cosmovisão europeia sobre o mundo e trazendo consigo a modernidade ao Ocidente.

Figura 01 - AmericasiveIndia Nova etMagnae Gerard Mercator –
Michael Mercator, 1602.  Fonte: raremaps.com


O progresso cartográfico esteve intimamente relacionado ao aperfeiçoamento das técnicas de navegação, base necessária para viagens interoceânicas. A obra de Ptolomeu, redescoberta em meados do século XV e difundida através da imprensa, foi de particular importância ao fixar métodos de cálculo de latitudes e longitudes, e por enfatizar a importância de se estabelecer as bases do sistema de coordenadas, permitindo a navegação em mar aberto através da observação astronômica, técnica difundida pelos livros de cosmografia durante o século XVI. A projeção plana de Gerard Mercator significou um importante avanço, transformando completamente os métodos de confecção cartográfica.

Os descobrimentos geográficos realizados por exploradores e soldados espanhóis no novo mundo foram logo centralizados nas mãos da Casa de Contratação, instituição criada pela monarquia espanhola para supervisionar e controlar a navegação para as Índias. Durante o século XVI foi a organização de investigação cartográfica mais importante da Europa, contudo, o caráter empírico de sua cartografia e a confidencialidade em que se manteve, limitou seu impacto na sociedade.

O trabalho de difusão dos novos conhecimentos geográficos ficou a cargo dos impressores centroeuropeus, em particular dos Países Baixos, centro mercantil e financeiro da Europa setentrional, que no final do século XVI e início do século XVII se converteu no principal centro cartográfico do continente. A popularização da imprensa e o uso da gravação em madeira e posteriormente no cobre tornaram os custos da confecção e reprodução de mapas mais acessíveis, gerando uma verdadeira idade do ouro da cartografia. Em 1570, Abraham Ortelius publicou o primeiro atlas moderno da história, dando início a época de auge dos editores holandeses. Nas décadas posteriores, seu trabalho foi imitado por outros importantes cartógrafos, como o próprio Gerard Mercator, Cornelis de Jode, Willem Janszoon Blaeu, Johannes Janssonius, Frederick de Wit e Nicolas Sanson D’Abbeville.

A descoberta de novos territórios obrigou a revisão da figura do mundo que propuseram Ptolomeu e outros clássicos da antiguidade. Aceitou-se a existência de um novo continente e a sua representação sofreu numerosas variações através do tempo. Em 1507, este foi batizado de América pelo editor alemão Martin Waldseemüller, nome consagrado pouco tempo depois por Gerard Mercator.


Figura 02 - Americae Nova Tabula – Willem JanszoonBlaeu, 1621. Fonte: raremaps.com
Em 1597, CorneliusWyytfliet publicou uma das primeiras descrições do novo mundo, em que sem dúvida, abundavam detalhes fantasiosos. As utopias que gerou o descobrimento da América traduziram-se em constantes referencias a lugares míticos, como a Cidade dos Césares, El Dorado ou o fabuloso país de Quivira. Devido a isso, o início da cartografia americana esteve marcado por inúmeras imperfeiçoes, muitas das quais foram somente esclarecidas durante o século XVIII, graças as grandes explorações científicas realizadas por franceses e ingleses. A era da razão derrubou os últimos vestígios de utopia na cartografia americana, e abriu caminho para a representação científica do território.

REFERÊNCIAS:

Molinari, Diego Luis. El nacimientodelnuevo mundo: 1492-1534: historia y cartografía. Buenos Aires: Kapeluz,1941.

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