quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O QUE VOCÊ PROVAVELMENTE NÃO SABIA SOBRE AS CIÊNCIAS NA IDADE MÉDIA – PARTE I

Por: Tiago Henrique da Luz


 IDADE MÉDIA; FILÓSOFOS MUÇULMANOS; BIZANTINOS

Figura 01 (capa): Santo Agostinho em seu gabinete, de Sandro Botticelli. Fonte: Wikimedia Commons

A FILOSOFIA PAGÃ E A FÉ CRISTÃ

Depois do século II d. C. e durante a Idade Média (século V até século XV d. C.), quando o Cristianismo foi se tornando a visão de mundo predominante, os pensadores cristãos procuraram submeter a filosofia grega às concepções do cristianismo. O paganismo buscou refúgio nas áreas rurais, mas em meio a perseguições e conversões, foi gradativamente sendo reprimido. A estrutura do modelo cósmico de Ptolomeu e Aristóteles foi adotada pelos cristãos, mas considerando que o universo era criado pela Vontade Divina.

Nesse sentido, Santo Agostinho foi um dos principais pensadores cristãos e, vivendo na época do fim do império romano, dedicou-se a aproximar do Cristianismo a filosofia de Platão, atrelando a fé e a razão, até então percebidas como inconciliáveis.

A Salvação só poderia ser alcançada através da graça divina, sendo que, para Agostinho, o pecado seria a submissão da alma ao corpo; para alcançá-la, portanto, era necessário buscar a iluminação interior através da libertação das tentações materialistas.

Com a dissolução do Império Romano e a chegada dos reis “bárbaros”, não havia o aparato institucional que garantisse a continuidade das tradições intelectuais greco-romanas, somando-se a isso, ainda havia os ataques dos filósofos cristãos contra os não cristãos, restando apenas alguns influenciados pelo neoplatonismo, sob a proteção da Igreja.

Deve-se lembrar que a parte oriental do Império Romano sobreviveu por mais um milênio e lá, com os bizantinos, resistiu também esta tradição que se abalava no ocidente, mas tomando uma forma própria influenciada pelo helenismo, caracterizada pela preocupação com a beleza das formas e com o sentido prático dos assuntos tratados.

Os pensadores bizantinos foram vários. Dentre eles podem ser destacados João Filopon, que escreveu um Tratado do Astrolábio, e uma Teoria do Mundo, comentários sobre obras de pensadores anteriores, como Euclides, Nicômano de Gerasa e Ptolomeu; Zózimo de Panolis, cuja obra difundiu a idéia da transmutação dos metais – a alquimia; Áceio de Amida produziu uma enciclopédia revelando as primeiras tentativas de estudos neurológicos.

Com o fechamento da Academia de Atenas, muitos filósofos fugiram das perseguições em direção ao Império Sassânida. Destas trocas culturais e científicas com os árabes, persas e indianos, a astronomia passou por diversos avanços, apesar de os bizantinos nunca terem deixado de lado a cosmologia grega clássica.


A FILOSOFIA GREGA E O SURGIMENTO DO ISLÃ

Figura 02: Cédula iraquiana de 10 dinares, com imagem de Al-Alim al-Arabiy al-Hasan bin al-Haytham (1980).
Fonte: Wikimedia Commons

O Império Sassânida surgiu em 226, herdando tanto os conhecimentos dos impérios mesopotâmicos quanto as influências do helenismo. Logo iriam nascer novas concepções de mundo: o Maniqueísmo, caracterizado pelo dualismo, ou seja, pela oposição entre duas forças antagônicas, e o monofisismo, com a idéia de unidade divina, inspirada no neoplatonismo.

O Império Abássida, formado a partir das conquistas árabes frente aos bizantinos e persas que se enfraqueciam, estendeu seus domínios desde a Europa até o Extremo Oriente. A fim de fazer frente às doutrinas dos aristocratas persas, como o zoroastrismo e o maniqueísmo, os abássidas importaram e difundiram os conhecimentos filosóficos e científicos dos bizantinos.

O sétimo califa Abássida Al-Ma’mun, estabeleceu uma Casa da Sabedoria, a fim de sistematizar o pensamento grego dentro do mundo cultural árabe, mandando traduzir obras de Platão, Euclides, Ptolomeu, bem como diversas obras indianas. Este esforço permitiu o surgimento de grandes pensadores como o matemático al-Kuarizmi (que lançou os fundamentos da álgebra); o filósofo al-Kindi, que buscou mostrar que filosofia e religião eram compatíveis; o neoplatônico Farabi, que propunha a aproximação entre filosofia e religião.

Este debate entre religião e ciência produziria muitas divergências, levando ao aparecimento de escolas ligadas ao racionalismo dos gregos-helenistas e outras escolas adeptas da tradição religiosa, apesar de esta vertente não recusar a demonstração experimental – de fato esta era a sua característica mais marcante. Entre estes últimos, os estudos de óptica de al-Haytham foram os mais destacados.

As escolas rabínicas também se beneficiaram desta atmosfera, estando entre os mais destacados o pensador judeu Saadia ben Jossef Fayyum, que também procurou compor um sistema filosófico-religioso, harmonizando a fé e a razão.


REFERÊNCIAS


NASCIMENTO JUNIOR, Antônio Fernandes. Fragmentos da história das concepções de mundo na construção das ciências da natureza: das certezas medievais às dúvidas pré-modernas. Ciênc. educ. (Bauru), Bauru , v. 9, n. 2, 2003.
Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-73132003000200009&lng=en&nrm=iso>
Acesso em Setembro 2014

PORTO, C.M.; PORTO, M.B.D.S.M.. A evolução do pensamento cosmológico e o nascimento da ciência moderna. Rev. Bras. Ensino Fís., São Paulo, v. 30, n. 4, Dec. 2008.
Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-11172008000400015&lng=en&nrm=iso>
Acesso em: Setembro 2014.


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