segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Resenha do livro: Levi, Primo. É isto um homem?; tradução Luigi Dei Re. _ Rio de Janeiro: Rocco, 1988

Por: Eloana Santos Chaves, Huellingnton Robert da Silva, João Marcos Alberton


Figura 01: capa do livro: É isto um homem?
 fonte: slideshared
Levi apresenta seu livro como um aviso à humanidade sobre o perigo do desumano. Através da memória, ele reaviva sentimentos confusos de alívio, esperança, sobrevivência e tristeza no convívio coletivo entre a prisão e a morte. Seu objetivo é dividir esta vivência e libertar-se de sua angústia, como se exorcizasse em seu depoimento o desejo de resgatar a humanidade e a identidade como pertencente a todas as pessoas. 

A primeira parte do livro é uma espécie de poema, que dá nome ao livro: É isto um homem? Dividido em quatro partes, a primeira é uma estrofe que chama a atenção para o mundo a sua volta: sem comodidades, tão pouco seguro. A segunda narra os acontecimentos temíveis pelos quais passaram homens e mulheres. A penúltima é um pedido para que estes episódios sempre sejam lembrados e novamente considerados; a última é um exasperado ultimato contra o esquecimento dos fatos narrados pelos sobreviventes. 



A viagem 

Neste capítulo, Levi conta como ele e centenas de pessoas (judeus italianos) foram tratados a partir de sua detenção num campo de concentração em Fóssil em 1944. Ele tinha 24 anos. Estavam presas ali muitas outras pessoas (inclusive famílias), detidas por diversas situações, seus destinos eram igualmente incertos, entretanto emanava deles um misterioso sentimento de morte. Até que foi marcada uma viagem, todos deveriam se aprontar, a espera foi torturante, e a viagem não foi melhor. Todos foram colocados nos vagões, empilhados melhor dizendo, durante a viagem, o desconforto e a sede deram lugar ao medo e a angustia. Chegando ao destino, depois de uma longa e extenuante viagem, as pessoas foram despidas de seus pertences e separadas de seus entes. Ninguém respondia perguntas, nada se dizia, nada se sabia, todos apenas obedeciam, talvez pensando que ao fim tudo iria ajeitar-se e regular-se. Por fim, Levi e mais 29 homens foram postos em um caminhão que os transportou ao destino final.

Levi conta como mais tarde soube que praticamente todos que estavam no campo de concentração italiano desapareceram, sobrevivendo apenas alguns poucos homens e mulheres. Daquele dia em que ele e seus companheiros embarcaram no trem, todos foram para o campo de concentração em Monowitz perto de Auschwitz. Quando aí chegaram não lhes foi dado sequer água, completaram então mais de quatro dias com sede, mandaram que ficassem nus, seus pés estavam em água tóxica, ninguém respondia suas perguntas.

Eles passaram por desinfecção, receberam roupas de prisão e foram tatuados com números nos braços. Ali estavam prisioneiros políticos e criminosos alemães e poloneses, além dos judeus. Eram, então, três grupos distintos.
Ali todos tinham que trabalhar, se adoecessem, a chance de morrer era enorme; comer e  machucar-se o menos possível era seu o objetivo diário. O frio e a miséria humana eram os piores inimigos, piores até que seus desconhecidos algozes.
Iniciação

Nesta parte, Levi reflete sobre manobra e as justificativas para permanecer moralmente vivo naquele ambiente. Ele relata o entendimento que um dos condenados tem sobre a necessidade de sentir-se cidadão e, consequentemente, não entregar-se à morte moral do mundo.

Discorre sobre a importância de cultivar a memória para que os outros possam saber o que eles passaram. Ele ainda não compreende a situação onde se encontra, ele busca encontrar motivos para tudo aquilo.
Levi testemunha durante 20 dias o sistema de controle das enfermidades: as pessoas ou se curam antes disso ou podem se considerar mortas. Neste episódio, Levi se machuca significativamente no pé e precisa de atendimento médico. Apresenta-se no Ka-Be, um tipo de hospital do campo, onde médicos e enfermeiros são também prisioneiros, mas de outro grupo de "delito". Ele explica todos os procedimentos e o tratamento a que é submetido.

O que fica em sua memoria é que este lugar apesar de ser vexaminoso, humilhante e cruel, assegura momentos de reflexão.  Levi desperta a consciência de que o homem pode ser o pior inimigo dele mesmo, literalmente e em todos os sentidos.
Levi conta como eram suas noites. Lá eles dormiam quase sempre em dois num espaço de 70 cm de largura, quase sempre com desconhecidos. O cansaço não deixa o sono pesar. Ele conta um sonho coletivo, que outros companheiros compartilham, de serem ignorados quando contam o que passaram aos familiares e amigos; também sonham com comida. Outra coisa que dividem é o valor simbólico de alguns sinais, como barulhos específicos que eram reconhecidos e com o tempo podiam ser interpretados nos mínimos detalhes.

O trabalho 

Segundo Levi o trabalho pode se resumir em “empurrar vagões, carregar caibros, rachar pedras, remover terra com a pá, apertar nas mãos nuas o arrepio do ferro gelado” (p. 143). Ele descreve o trabalho como um exercício diário e doloroso, cuja sequência se desenha desde a arrumação da cama, permeia o trabalho extenuante até a volta a cama dura, estreita e fétida.
Durante o trabalho, os prisioneiros eram exauridos pela constância ou pelo peso ou pela dificuldade dos empreendimentos, o cansaço era tanto que mesmo ir à latrina, que era pior do que pudesse alguma pessoa imaginar, o autor a descreve como um oásis. O autor fala, nesse momento, que não consegue demonstrar sentimento como um ser humano, pois se encontra em letargia, num estado sem alma. 

Levi descreve a sensação de um dia em que pôde visualizar com mais cuidado o espaço onde se encontrava. Neste dia o sol iluminou a paisagem, e as cores precipitaram junto com elas a noção de toda a arquitetura das fábricas e dos campos de concentração, seus personagens e as hierarquias subumanas em que eram divididos. Neste dia, além do sol que aparecia, o grupo de que fazia parte (eram em 15) tinha conseguido, o que já havia acontecido outras vezes, mais comida além da ração diária, e esta satisfação os fazia sentirem-se confortáveis a ponto de lembrar-se de suas vidas.

Levi conta sobre as moedas de troca: camisas e o pão da manhã. Explica que havia um mercado que funcionava como uma bolsa onde cada troca era cotada com variações de câmbio e realizada de acordo com a fome ou o frio dos receptadores. Havia também negociação com trabalhadores externos aos campos de concentração onde outros itens podiam ser comercializados como fumo, camisas e obturações em ouro. Esse tipo de mercadoria tinha uma cotação maior relacionada com os riscos pela qual os negociadores se expunham. Trazer ou levar objetos acarretava penalidades que, para os de dentro do campo, podiam significar a morte; os de fora podiam ser submetidos à prisão rígida dentro do campo por cerca de oito meses. 

O sistema econômico nos campos de concentração se estabelece e se desenvolve por causa do racionamento de itens que lhes eram caros. Desta equação surgem roubos e exploração uns dos outros, o que era permitido e geralmente não gerava pena grave. Levi reflete sobre inversão de valores e a situação onde se encontrava.

No campo de concentração o homem se encontra na absoluta solidão, a luta pela sobrevivência torna o campo um lugar onde alguns se sobressaem fisicamente enquanto outros definham. Há apenas estas duas opções. Levi conta que a adaptação ao campo é a chance de sobrevivência no mesmo. Os trabalhadores que não participam desta organização social, suas variáveis e seus mecanismos de intercâmbio ficam a deriva e sucumbem dentro de três meses.

A importância de memoriar o vivido de extrair da experiência o conteúdo.
Desta vivencia em particular, Levi conclui que o silencio impera conforme o homem é submetido a necessidades e dor física diária.

Quatro homens: um, o criativo, para conseguir seu objetivo, melhorar de posição e destacar-se no campo, não se importa em dar uma surra em um camarada que foi seu cúmplice em um roubo; o segundo, planejador, mantém seu propósito firme, todos os dias, indiferente aos sacrifícios, justificando seus atos para conseguir uma situação melhor; o terceiro, um trabalhador incansável, adapta-se ao trabalho pesado do campo de concentração e se torna um ladrão eficaz, sua energia lhe traz privilégios dentre os outros. O último, o inteligente, alicia prisioneiros ingleses, cujos pertences possuem alto valor de troca na bolsa, astuto e ultra-racional, este homem não se deixa guiar pela afetividade e é movido apenas pelo desejo de manipular todo o tempo os homens e a situação ao seu redor. 

Levi conta sobre a esperança de tornar-se especialista. Abrem uma divisão de químicos e ele irá fazer uma prova para poder trabalhar lá. Ele participa de um interrogatório e responde perguntas, ficamos sabendo então que é um bacharel em química orgânica de Turim. A entrevista acaba e ele fica satisfeito por não ter trabalhado naquele dia.
Em conversa com um rapaz, cujos méritos de sociabilidade mereceram algumas páginas, deixa-se levar por lembranças agora poéticas do tempo da liberdade. Caminhando juntos, lado a lado, em direção ao trabalho, Levi declama trechos de poesias: quer explicar sua alma ao rapaz ao mesmo tempo em que compreende sua própria sorte.  

Memórias do fim da guerra: as construções pararam, o trabalho foi reduzido ao conserto dos estragos causados por bombardeios. A situação piorou ainda mais não havia água, nada de luz. 

Surge Lourenço: “A história da minha ligação com Lourenço é, ao mesmo tempo, longa e breve, simples e enigmática; é a história de uma época e de uma situação já canceladas de qualquer realidade atual e, portanto creio que não será compreendida a não ser, talvez como se compreendam as lendas e os tempos remotos". Um operário italiano, que por bondade trouxe a Levi pão e camiseta remendada durante 6 meses. Este ato de compaixão foi o responsável pela sobrevivência de Levi, não só pelo pão, não só por aplacar a fome da barriga, mas precisamente pelo sentimento de humanidade que ressurgia daquela realidade tão desacreditada. 

Dois meses se passaram e o inverno chegava. A chance de sobreviver cai desesperadamente. Levi descreve o suplício pelo qual deveriam passar, mas explica que suas palavras não têm, nem de perto, o mesmo significado, para tal entendimento outra língua deveria ser construída.

Levi descreve as seleções pelas quais eram escolhidos os que iriam morrer no dia seguinte, na câmera de gás. Estes rituais eram feitos quando os alojamentos excediam um número estipulado, a torre do crematório fumegava ainda mais.

Na memória de Levi eles contavam noventa e seis, com os italianos que estavam no mesmo trem somam se mais cento e setenta e quatro mil, destes apenas vinte e nove sobreviveram e oito foram “selecionados”. Assim sobraram vinte e um antes do inverno sobre o que ele começa a contar na sequencia. Conta-se ai um período de um ano.

A região estava sendo atacada, os prisioneiros sofriam ainda mais, pois com a desestrutura no campo aliada ao inverno, os prisioneiros judeus significavam menos que nada. Levi esmiúça as sessões de tortura no trabalho a que eram submetidos.
Finalmente, ele é chamado para trabalhar no laboratório- setor de polimerização. Isto salvaria a sua vida! Com o trabalho mais ameno, surgem ideias para aproveitar uma série de situações que escapavam ao controle dos Kapos, aparecem maneiras de conseguir mais comida que é igual dinheiro no campo. Ao mesmo surge um “homem” que tem uma atitude de rebeldia, e consegue explodir uma das fornalhas de crematório, nisto Levi conta que sentiu vergonha que ele tenha se ocupado em atitudes de sobrevivência própria enquanto outro foi tomado pelo sentido de embate.

Levi fica doente, se instala então na enfermaria, depois de quatro dias, tem a noticia de que os são e quem puder acompanhar sairão em marcha de  ca de vinte Quilômetros. Com Levi no mesmo bloco ficaram mais 10. Ele rememora os últimos dez dias, as primeiras noites escutavam se bombardeio parecia-lhe que em Auschwitz, não havia mais comida, outros homens batiam em seu alojamento, não podiam deixa-los entrar. De manha via-se os esfarrapos humanos perambulando ou se arrastando. Havia sujeira infectante por toda a parte, centenas de doentes espalhavam suas enfermidades. O inimigo gelo tornou-se um aliado - único meio de barrar os agentes mortíferos.

Na cozinha encontraram batatas, a água era retirada da neve suja. Nos dias restantes apesar da ou por causa da situação, Levi conta sobre os primeiros atos de  ‘reumanização’ entre eles desde que se encontravam no alojamento. 
Os mortos começaram a aumentar, não os tiravam dos beliches, os que eram retirados eram amontoados como uma trincheira. As coisas achadas no campo não eram divididas por igual entre os grupos de sobreviventes.

A situação se complicava à medida que as horas passavam, dos onze restaram três, os três amigos, os três que sabem... Até que finalmente foram resgatados, agora todos revivem todos.


BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR


NORA, Pierre. Entre memória e história - A problemática dos lugares. Projeto História: A história oral. São Paulo: EDUC, n. 10, dez., 1993.

POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, 1992.

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos.
Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, 1989.

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