quarta-feira, 18 de março de 2015

A Florença de Da Vinci


Figura 01 (capa): Paisagem da cidade de Florença, Itália.
Fonte: Wikimedia Commons

DESVENDANDO OS MISTÉRIOS DA NATUREZA

No século XV, a família dos ricos mercadores Medici estava se tornando bastante poderosa e influente na cidade de Florença, manifestando este poder de diversas formas. Américo Vespúcio, o explorador que teve seu nome dado ao continente recém-descoberto, estava a serviço de Lorenzo di Pierfrancesco de' Medici. Lorenzo também havia encomendado, em 1485,  o quadro “O nascimento de Vênus”, do pintor Sandro Botticelli.

Esta é a época que os historiadores consideram como o fim da Idade Média. As mudanças que a separam da Idade Moderna são mais sutis e já vinham se compondo há alguns séculos. Na área das navegações, por exemplo, as expedições portuguesas estavam pondo em xeque o entendimento que se tinha até então sobre o mundo, já que pouco se sabia das costas africanas nos tempos dos romanos, e Aristóteles e Ptolomeu desconheciam o continente americano.

O mapa-múndi organizado pelo monge beneditino Fra Mauro (uma pintura em forma de quadrado com mais de 2 metros de lado!), a pedido de *, por exemplo, reúne diversos elementos interessantes. Fra Mauro se apoiou nos relatos de viajantes como Marco Polo, que chegara por terra até o Extremo Oriente, e trouxeram informações que sugeriam uma configuração geográfica diferente.

Figura 02: Mapa-múndi de Fra Mauro, cerca de 1450.
Fonte: Wikimedia Commons
Algumas das inscrições e símbolos representam a Criação, além de ser possível ver a concepção das esferas concêntricas (Terra, Água, Ar, Fogo, Lua, etc.) de acordo com Aristóteles e Ptolomeu, conciliando assim a visão de mundo cristã e a sabedoria dos antigos nesta nova representação do mundo.

Se, por um lado, estas viagens contribuíram com a reunião de informações sobre terras distantes, outros aspectos do mundo e da natureza estavam sendo igualmente investigados de outras maneiras. Nas artes, novas formas de perceber e representar o mundo também estavam surgindo. Grandes nomes começavam a surgir, como Giotto nos anos 1300 e Brunelleschi em cerca de 1400. Ao longo deste percurso, os artistas e suas grandiosas obras eram alvo de rivalidades entre as cidades em busca de embelezamento e essa competição estimulava a superação dos concorrentes.

Um século mais tarde, os artistas estavam se dedicando às matemáticas “a fim de estudarem as leis da perspectiva”, e à anatomia, para estudarem “a construção do corpo humano”. Assim, “explorar os mistérios do universo e as leis secretas da natureza” se tornava uma forma de alcançar fama e prestígio social (GOMBRICH, 2006, p. 287).

Ao longo do século XV vai se reforçando o distanciamento destes poucos e grandes gênios em relação à maioria dos artesãos comuns – mesmo os próprios membros da corporação em que o mestre havia aprendido seu ofício. Note-se bem: o artesão medieval é membro de uma corporação, enquanto o famoso artista do Renascimento emerge do anonimato, reconhecido pelo seu talento, que o afasta do trabalhador manual e aproxima do intelectual letrado.

Também estavam em busca de honra e prestígio as pequenas cortes italianas, e construir grandiosos edifícios ou dedicar uma pintura ao altar-mor de uma igreja famosa era um “modo seguro de perpetuar o próprio nome e de adquirir um monumento para dignificar a existência terrena” (GOMBRICH, 2006, p. 288).

O INCANSÁVEL DA VINCI


Neste contexto, Leonardo (1452-1519) – nascido na pequena cidade de Vinci - desempenha seu ofício, inscrito em 1472 como pintor em Florença. Ao contrário dos grandes nomes de seu tempo, Leonardo não mergulha tão a fundo nas cortes.

Leonardo vai até Milão em 1482 e, oferecendo seus serviços ao duque Ludovico, o Mouro, se apresenta mais como engenheiro militar do que como artista, propondo a construção de diversas máquinas de guerra. Lá, ele toca a lira, como músico na corte, mas demora-se a entregar a estátua equestre destinada ao pai do duque. Considerado caprichoso e instável, o artista  interrompe e reinicia suas obras diversas vezes, entregando em 1494 o modelo em gesso, mas nunca o monumento em bronze. Nestas interrupções, se dedica aos estudos técnicos.

Numa destas ocasiões, o prior do Convento de Santa Maria das Graças, impaciente com a demora em concluir a pintura de A ceia, e cansado de ver Leonardo “passar períodos inteiros refletindo sem tocar nos pincéis”, dirige suas queixas ao duque. Então, convocado ao palácio para explicar, o polímata se justifica diante da dificuldade de representar duas personagens que estão faltando: Jesus e Judas. Segundo Larivaille, Leonardo teria complementado, argumentando que se a tarefa de representar o Cristo se mostrasse além de suas capacidades, restar-lhe-ia, ao menos, “a possibilidade de ornar seu Judas com os traços do inoportuno e indiscreto prior” (LARIVAILLE, 1988, p. 182).

A mencionada passagem reflete a personalidade de Leonardo e também sua perspectiva em relação ao trabalho: “o pintor que trabalha rotineira e apressadamente, sem compreender as coisas, é como o espelho que absorve tudo o que encontra diante de si, sem tomar conhecimento”. Para ele, a pintura é uma ciência e, de fato, nesta época, a linha que separa a arte e a ciência são difíceis de traçar (LARIVAILLE, op cit., p 182).

Nas palavras do próprio Leonardo, “os que se voltam para a prática sem a ciência são como os marinheiros que embarcam sem timão e sem bússola e nunca sabem para onde vão”. Eis aí o motivo de sua obstinação: a busca por um conhecimento tão perfeito quanto possível sobre o funcionamento de um mecanismo ou sobre as leis que regem algum fenômeno. Esta forma de perceber a natureza, afastada das “causas finais” e dos “milagres” traduz a mudança que ocorria em sua época, que possibilitou trazer a experimentação e a observação como método de teste para o saber decorrente da especulação (THUILLIER, 1994, p. 97).


Por Tiago Henrique da Luz


PARA SABER MAIS...

Entrevista com Professor de Filosofia Mário Sérgio Cortella
http://www.youtube.com/watch?v=8Okbq8W4o7M


REFERÊNCIAS

HISTÓRIA da expansão portuguesa / Autores Maria Fernanda Alegria... [et al.]; direção: Francisco Bethencourt, Kirti Chaudhuri. Lisboa: Temas e Debates, 1998- . v.1. p. 26-61.

LARIVAILLE, Paul. A Itália no tempo de Maquiavel: Florença e Roma. São Paulo: Companhia das
Letras, 1988.

RABELO, L. M. A CONSTRUÇÃO DOS MAPAS-MÚNDI NOS SÉCULO XV E XVI:

ENTRE A EXPERIÊNCIA E A TRADIÇÃO. Curitiba: UFPR, 2009. Disponível em: <http://www.historia.ufpr.br/monografias/2009/2_sem_2009/lucas_montalvao_rabelo.pdf>. Acessado em: Novembro de 2014.

THUILLIER, Pierre. De Arquimedes a Einstein: a face oculta da invenção científica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994.

História do mapa de Fra Mauro. Disponível em: <http://www.ambcanberra.esteri.it/NR/rdonlyres/A74A3D5E-AE1B-4657-98CD-44EBF9F2A01E/27240/FraMaurostory.pdf>. Acessado em: Julho de 2014

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