segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A história da Arte como uma disciplina humanística

O Pensador, de Rodin.
O presente texto pretende trazer a parte inicial das ideias do pensador Erwin Panofsky, sobre como se estrutura o processo de significação nas artes partindo da discussão sobre as diferenças e semelhanças entre a Ciência e as Humanidades. 

Erwin Panofsky. Fonte: Gurupedia.

Panofsky fala sobre possíveis significados da palavra Humanität (Humanidade). O primeiro oriundo do contraste do homem e o que é menos que ele, e o outro do que é mais que ele. No primeiro caso humanitas significa um valor, no segundo, uma limitação.  No princípio com a filosofia de Cipião, o significado de humanitas como valor separa o homem do animal e também dos que não merecem ser chamados de homem. Mais tarde no medievo surge um entendimento sobre humanidade como algo oposto a divindade associado à fragilidade e transitoriedade. No renascimento existia um aspecto duplo, uma junção dos dois anteriores. A teologia e a Natureza podem ser encaradas como as duas faces de uma mesma moeda, pois as coisas passavam a ser explicadas tanto pelo aspecto divino quanto pelo da natureza. É daí que surge o Humanismo, como explica Panofsky: “... a convicção da dignidade do homem, baseada, ao mesmo tempo, na insistência sobre os valores humanos (racionalidade e liberdade) e na aceitação das limitações humanas (falibilidade e fragilidade).” (PANOFSKY, 2014. P. 20)

A Escola de Atenas de Rafael, CA 1500. Fonte Revista Vila Nova.
A partir dai surgem várias vertentes de pensamento sobre humanidades, por exemplo, a dos deterministas, dos insetólatras e os partidários do autoritarismo, além dos que negam as limitações humanas. Ou seja, “... do ponto de vista do determinismo o humanista é ou uma alma penada ou um ideólogo. Do ponto de vista do autoritarismo ou é um herético ou um revolucionário (ou um contra revolucionário). Do ponto de vista da insetolatria é um individualista inútil e, do ponto de vista do libertinismo, um burguês tímido.” (PANOFSKY, 2014. P. 21)

No medievo o que entendemos hoje por ciência natural e humanidades não sofria distinção, ambas eram englobadas pelo que era chamado de Filosofia. Sobre isso Panofsky faz um paralelo sobre a incapacidade do homem medieval de desenvolver uma concepção de disciplinas históricas, para o autor no medievo a perspectiva que é percebida de uma distância fixa entre o olho e o objeto não é entendível, assim, para a Idade Média era impossível perceber uma distância fixa entre o presente e o passado Clássico.

Giovanni Francesco Barbieri,
personificação da astrologia, 1650. 
No campo da criação passou-se a se fazer a distinção entre o que órbita na esfera da natureza e o que orbita na esfera da cultura. Permeando o tempo-espaço da natureza, a ciência busca conter a variedade dos fenômenos naturais; Da órbita da cultura, as humanidades buscam conter as variedades dos registros humanos. O homem usa os signos percebendo a relação das suas significações e ideiam estruturas percebendo a relação de construção de uma ideia. Para Panofsky um historiador é o estudioso humanista que recorre aos registros humanos que emergem da corrente do tempo. Os registros são signos e estruturas do próprio homem na medida em que expressam ideias que permeiam os processos de assinalamento da construção do pensamento.

Do ponto de vista humanístico, a investigação é realizada pelo estudo dos registros humanos. Um cientista interessa-se humanisticamente por um assunto,quando trata dos registros humanos, não como algo a ser investigado e sim como algo que o ajuda na investigação. Aproximando os cientistas dos humanistas, Panofsky delibera sobre as analogias metodológicas das duas esferas de conhecimento:
“Talvez seja verdade que “nada está na mente a não ser o que estava nos sentidos”; mas é pelo menos igualmente verdadeiro que muita coisa está nos sentidos sem nunca penetrar na mente. Somos afetados principalmente por aquilo que permitimos que nos afete; e, assim como a ciência natural involuntariamente seleciona aquilo que chama de fenômeno, as humanidades selecionam, involuntariamente, o que chamam de fatos históricos.” (PANOFSKY, 2014. P. 25)
Para o cientista cabe a observação dos fenômenos, para o humanista cabe a investigação dos registros humanos; daí tanto o cientista quanto o humanista precisam interpretar, por ordem, os registros e os acontecimentos da natureza; tendo os resultados eles precisam ser classificados e sistematizados coerentemente.

Georges Seurat.  Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte - 1884.
Dentre as diferenças entre as ciências naturais e as humanidades, a mais fundamental para Panofsky é que:

“a ciência natural observa os processos forçosamente temporais da natureza e tenta apreender as leis intemporais pelas quais se revelam. A observação física só é possível quando algo “acontece”, ou seja, quando uma mudança ocorre ou é levada a ocorrer por meio de experiências. E são essas mudanças que, no fim, são simbolizadas pelas fórmulas matemáticas. As humanidades, por outro lado não se defrontam com a tarefa de prender o que de outro modo fugiria, mas de avivar o que, de outro modo, estaria morto. Em vez de tratarem de fenômenos temporais e fazerem o tempo parar, penetram numa área em que o tempo parou, de moto próprio, e tentam reativá-lo. Fitando esses registros, congelados, estacionários, que segundo disse, “emergem de uma corrente do tempo”, as humanidades tentam capturar os processos em cujo decurso esses registros foram produzidos e se tornaram o que são.” (PANOFSKY, 2014. P. 44)
Em vista destes esclarecimentos, temos que o desenvolvimento da história da arte como disciplina vem sendo construído pela necessidade da historiografia em destacar os métodos de conhecimento da realidade seja pelo campo da Ciência ou pelo das Humanidades. O significado da Vida percorre o Campo da Historia da Arte, pois o tempo do homem dura tanto quanto se tem conhecimento sobre ele.

Cartaz representativo da História da Arte.

Por Eloana Santos Chaves , João Marcos Alberton, Huellington da Silva.


REFERÊNCIAS:


PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes visuais. São Paulo: perspectiva, 2014. Introdução.
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3 comentários:

  1. Gostei bastante do texto sobre a Ciência da Arte. De como era vista por várias vertentes de pensamento. De fato a História contribui de maneira pertinente para entendermos a nossa Cultura, modo de agir e pensar, ou seja; se localizar e identificar-se como ser humano que faz História....

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  2. Alias, sem a História; sem os registros e Documentos Históricos, a Ciência da Humanidade estaria perdida.... Nem mesmo conseguiam dar continuidade a certos experimentos e avanços tecnológicos do Planeta.

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  3. Lurdes Aparecida de Jesus24 de setembro de 2015 23:57

    Gostei do texto sobre a História da Arte. Nele percebe-se o quanto a História contribuiu de maneira pertinente para os avanços da humanidade. Está expresso nos seus Documentos Históricos e Registros, a maneira de pensar dos homens, do passado e traz consigo o entendimento dos tempos atuais, ou seja, a Identidade do homem, e do desenvolvimento da Ciência até hoje no nosso Planeta....

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