quarta-feira, 26 de agosto de 2015

PAISAGENS DO MEDO E FRAGMENTAÇÃO DO ESPAÇO URBANO


As cidades representam a grande aspiração humana em relação a uma ordem perfeita e harmônica, tanto no que se refere a suas estruturas arquitetônicas quanto nos laços sociais que nelas existem, opondo a aparente desordem e caos da natureza (TUAN, 2005). Assim, à medida que as pessoas aumentaram seus poderes sobre a natureza, o medo que sentiam dela diminuiu exponencialmente (TUAN, 2005). No entanto, ao longo de suas histórias, as cidades deixaram de ser esses modelos ideais e tornaram-se espaços físicos desorientadores e amedrontadores (TUAN, 2005). 

Além dos espaços físicos, o medo nas cidades não pode ser nitidamente isolado do medo de seus habitantes. De acordo com Yi-Fu Tuan (2005, p. 10), o medo é um sentimento complexo experimentado por pessoas, sendo, portanto, subjetivo, no qual se distinguem dois componentes: o sinal de alarme, detonado por um evento inesperado impeditivo no meio ambiente cuja resposta da pessoa é enfrentar ou fugir; e a ansiedade, sensação difusa de medo que pressupõe uma habilidade de antecipação. Nesse contexto, o autor destaca que nas cidades, a principal forma de medo é a ansiedade, causadora do sentimento de insegurança. 

Daniel Innerarity (2010) despende o papel das mídias no sentido de emoldurar o sentimento de insegurança geral que toma conta dos espaços das cidades, mantendo o terror numa dose aceitável. Assim, conforme Zygmunt Bauman (2009, p. 15), “a aguda e crônica experiência da insegurança é um efeito colateral da convicção de que, com as capacidades adequadas e os esforços necessários, é possível obter uma segurança completa.”. 

Então, espalham-se pelas cidades contemporâneas, sobretudo na interface entre o espaço público e o privado, edificações que lembram os fossos, as torres e as seteiras das muralhas das cidades antigas, caracterizando uma verdadeira arquitetura do medo e da intimidação que transforma esses espaços em áreas extremamente fortificadas e vigiadas dia e noite (BAUMAN, 2009). No entanto, se nas cidades antigas tais edificações serviam para proteger os espaços urbanos e seus habitantes de inimigos externos, nas cidades contemporâneas elas servem para dividir e manter separados seus próprios habitantes (BAUMAN, 2009).

Figura 1: residência com muro alto, concertina, cerca elétrica e câmeras de vigilância. Disponível em: <http://goo.gl/xG6XjF>. Acesso em 10/06/2015

Conforme Teresa Caldeira (2005, p. 211), “as regras que organizam o espaço urbano são basicamente padrões de diferenciação social e de separação”, que variam culturalmente e historicamente, mas que revelam como grupos sociais distintos se inter-relacionam nos espaços das cidades. Por este motivo, a tendência nas cidades contemporâneas é que as pessoas se isolem em “enclaves fortificados”, ou “guetos voluntários” segundo (BAUMAN, 2009), caracterizados como propriedades privadas, fisicamente demarcados e isolados, controlados por guardas e sistemas de segurança e que, principalmente, tendem a ser socialmente homogêneos (CALDEIRA, 2011). Desse modo, as pessoas buscam defender a própria segurança procurando a companhia dos semelhantes, afastando os estrangeiros (BAUMAN, 2009). Assim, entende-se que, conforme Tuan (2005), a heterogeneidade social é uma condição que incentiva o conflito, sendo que nas cidades isto coexiste no tempo e no espaço. 

Figura 2: casas em condomínio. Comumente, as casas localizadas em condomínios não têm muros internos, mas grandes muros cercam todas as extensões de seus perímetros, Já as pessoas que neles moram tendem a ter padrões sociais semelhantes. Disponível em: <http://goo.gl/uQa24b>. Acesso em: 10/06/2015.
Figura 3: arquitetura antimendigo. No caso, as pedras pontiagudas colocadas embaixo do viaduto impedem que moradores de rua ocupem o espaço. Disponível em: <http://goo.gl/Uxtl6F>. Acesso em: 10/06/2015.

Por fim, diante do contexto apresentado de fragmentação dos espaços das cidades e da representação do medo em suas paisagens, pode-se refletir sobre a afirmação de Innerarity (2010, p. 119) de que “para que a urbanidade se realize tem de haver integração social, sem a qual a tolerância estará sempre a um passo de se transformar em preconceito e segregação”. Nesse sentido, no contexto das cidade contemporâneas, infere-se que as cidades estão cada vez mais vazias de urbanidade, porém cheias de preconceito e segregação.


Por Lawrence Mayer Malanski


REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Vigilância e medo na cidade. Petrópolis: Ed. Zahar, 2009.

CALDEIRA, Teresa P. R. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: EDUSP, 2011.

CARMONA, Matthew. Contemporary public space: critique and classification, part one: critique. In: Journal of Urban Design, v. 15, n. 1. fev. 2010, p. 123-148.

GOMES, Paulo C. C. A condição urbana: ensaios de geopolítica da cidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.

INNERARITY, Daniel. O novo espaço público. Lisboa: Textos Editores, 2010.

TUAN, Yi-Fu. Paisagens do medo.  São Paulo: Editora da UNESP, 2005. 

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