terça-feira, 1 de setembro de 2015

UMA TRAPAÇA NAS PLANTAS

Figura 01 – Orquídea. Fonte: Biologia da Polinização.

Nas plantas pertencentes ao grupo Angiospermae, a reprodução sexuada é feita pela flor. A flor é considerada um ramo profundamente transformado, constituído de um eixo caulinar e folhas diversamente modificadas, algumas estéreis e outras férteis. As folhas estéreis auxiliam no processo de reprodução, exercendo a função de proteção dos órgãos reprodutivos ou de atração para agentes polinizadores como insetos, pássaros e morcegos. As folhas férteis formam verdadeiros órgãos sexuais masculinos (estames formados pela antera, conectivo e filete) e femininos os carpelos (formados por estigma, estilete e ovário).

A polinização é considerada como a transferência dos grãos de pólen das anteras para o estigma das flores. Dentre as estratégias das plantas para atrair os polinizadores estão os odores, a cor das flores, o tamanho, a morfologia da corola e o tipo de recursos oferecidos (óleos, pólen, néctar). Existem visitantes florais que coletam recursos em flores sem realizar a polinização, e também há espécies de plantas que atraem polinizadores sem oferecer qualquer recurso. Este tipo de associação é denominado polinização por engodo, sendo particularmente comum em plantas polinizadas por insetos. A maioria das espécies polinizadas por engodo simula a presença de recursos florais, como néctar, pólen e local de desova. Em casos extremos, algumas flores simulam características de insetos fêmeas, atraindo machos da mesma espécie que tentam copular com a flor efetuando, assim a polinização. Neste caso, os polinizadores são atraídos por estímulos visuais e olfativos exagerados dos quais se valem as plantas. Existem casos específicos em que plantas produzem aromas extremamente específicos que atraem apenas uma espécie de polinizador.

A literatura registra cerca de 33 famílias e 146 gêneros de plantas com este tipo de polinização. As flores nestes grupos apresentam características que simulam a existência de diversos recursos, utilizados pelos polinizadores como: restos de animais em decomposição procurados por moscas e besouros saprófagos para ovoposição e alimentação, local de abrigo e sinais associados à existência de um parceiro sexual, que atraem principalmente vespas e abelhas do sexo masculino que tentam copular com determinadas estruturas florais. 

Figura 2: Stapeia sp. Fonte:Asclepidarium.
Nas plantas que simulam locais de ovoposição e alimentação, as flores possuem coloração que lembra carcaças em decomposição, mas o odor é a principal fonte de atração dos polinizadores. Os odores lembram esterco, corpos de frutificação de fungos e carne em decomposição. Os polinizadores procuram este tipo de planta para depositar seus ovos na expectativa que suas larvas terão alimento quando eclodirem ou para própria alimentação. Espécies de Stapelia (Apocynaceae) utilizam este tipo de recurso para garantia de polinização.

Já nas plantas que simulam locais de abrigo encontramos o curioso exemplo da orquídea do gênero Serapias da região do Mediterrâneo. As flores simulam locais de abrigo utilizados por espécies de besouros, vespas e abelhas solitárias. Sépalas e pétalas formam um tubo floral que se assemelha a entrada de ninhos e abrigo destes insetos, e a temperatura no interior das flores é superior àquela encontrada no ambiente. 
 
Figura 3: Serapias sp. Fonte: Orchid Species.

Dentre os tipos de polinização por engodo, a simulação de parceiros sexuais, é o mais interessante. Neste tipo de polinização os insetos do sexo masculino são os principais polinizadores, uma vez que as flores simulam a presença de fêmeas. Os machos são atraídos pelas flores á procura de fêmeas e, assim, efetuam a polinização. A polinização por pseudocópula é um caso em que a simulação do parceiro sexual atinge graus elevados de especificidade, uma vez que o inseto macho efetua a polinização quando tenta se acasalar com determinadas partes da flor, a qual simula a presença de uma fêmea. A origem deste tipo de polinização pode estar associada ao surgimento de aromas florais que foram selecionados pelas plantas para defesa contra herbivoria. Estes aromas se assemelhavam aos feromônios de insetos agressivos, os quais passaram a ser atraídos pelas flores e atuar como polinizadores. Na polinização por pseudocópula, os compostos mimetizam feromônios sexuais emitidos por insetos fêmeas, atraindo desta forma indivíduos machos que atuam como polinizadores.
 
Os casos mais famosos podem ser observados em espécies do gênero Ophrys (Orchidaceae), nas quais o labelo das flores mimetiza diversas características dos insetos fêmeas. Os machos confundem-as com fêmeas e pousa roçando seu dorso nas polínias (massas de grãos de pólen) onde as mesmas aderem-se ao inseto e este passa a outras flores fecundando o estigma contido em uma invaginação da coluna. A atração dos zangões se dá por meio visual como também por meio bioquímico, sendo que este gênero secreta a mesma substância das fêmeas de himenópteros. A fecundação é facilitada devido à emergência das ninfas dos machos antes das fêmeas, os machos após um tempo aprendem a diferença e passam a não mais polinizar as flores, portanto são favorecidas aquelas que florescem cedo. O tamanho do labelo é um modo de seleção do polinizador.

Por Tamara Francislaine Santana


REFERÊNCIAS

Boletim CAOB Coordenadoria das Associações Orquidófilas do Brasil. Nº58 Abr/ Jun, 2005. Fonte: file:///C:/Users/Herbario/Downloads/Sistemas%20de%20poliniza%C3%A7%C3%A3o%20em%20orqu%C3%ADdeas.pdf. Visitado no dia 10/08/2015 às 10:45.

DRESSLER, R. L. The Orchids, Natural History and Classification. Harvard University Press. Harvard, 1981.

GLOVER, B.J. Understanding flowers and flowering na integrated Apporoach. Oxfor press, 2007.

PERCIVAL, M. Biology floral. Pergamon Press, 1965.

RECH, A.R., AGOSTINI. K., OLIVEIRA EP.E., MACHADO I.C. Biologia da Polinização. 1ºed. Editora Projeto Cultural, 2014.

SOUZA, L.A. Morfologia e Anatomia Vegetal: Células, Tecidos, Órgãos e Plântulas. Editora UEPG, 2003.

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