sexta-feira, 25 de março de 2016

A problemática do outro pelo viés da modernidade e algumas decorrências

Gustave Courbet,  Os quebradores de pedras ,  1849, óleo sobre tela, 195 x 257 cm.

Courbet foi o primeiro pintor a problematizar a questão do outro, levando o espectador para dentro da tela. Entretanto, foi no campo filosófico que surgiram os primeiros desígnios sobre a questão da alteridade. Neste âmbito desde o principio, a reflexão sobre o outro demostrara uma dificuldade concreta. Esta ideia se comprova se revisarmos as primeiras tentativas de entendimento do outro, especialmente pela Filosofia Moral (da Ética) que analisa as relações que mantemos com o mundo que, por sua vez, é composto em grande numero por outras pessoas.

Do campo filosófico aprendemos que o tema da alteridade começa ser investigado na modernidade (a partir do século XVII), pois apenas neste momento que o debruçar sobre a figura do eu e do outro torna-se meio de reflexão da vida, que já não era tomada pela explicação advinda de um ser mítico ou religioso - o universo não é cósmico e Deus se fragmenta, apresentando várias facetas e quereres. Qual então seriam as condições materiais para uma vida Boa? Em busca de respostas, pensadores passam a investigar o próprio Homem, ou seja, o eu mais o outro.

René Descartes desenvolveu a tese pela qual todas as crenças são submetidas ao crivo da razão. Nesta perspectiva se constrói uma concepção cética, da qual surgem as incertezas das experiências sensoriais, das narrativas e problemáticas da vida. Surge assim, o Paradigma da subjetividade fundado no cógito, ideia desenvolvida por Descartes onde apenas o homem que cogita, que pensa, pode confirmar seu ato de pensar mas não pode confirmar se o outro pensa. George Berkeley contrapõe as ideias de Descartes quando diz que a essência do homem centra-se na percepção, assim o outro é percebido em seu exterior, é pois, uma imagem. Entretanto, o paradigma do cógito ainda decorre por não ter como saber se o outro também percebe. Para ele, o mundo não existiria como substância, apenas como percepção. Outro Filósofo que também se submete ao paradigma do cogito é Baruch Espinoza, porém, suas investigações apontam para a importância do sentimento em relação a si mesmo, permanecendo impossível saber sobre o outro se ele também sente.

Nestes parâmetros o outro é inacessível. A abordagem então muda de ponto referencial, isto é, ao invés de pensar a partir do eu, pensa-se o outro como centro de referência. Neste contexto tem-se a figura de Friedrich Nietzsche que apresenta uma filosofia que exige uma crença do imaterial, no transcendental, de imanências e de força vital. A consciência das coisas que passam pelas nossas vidas é a coisa mais importante da nossa psique. Neste aspecto o outro passa a ser condição, causa do eu. O outro vem antes, o outro que da o fundamento, é o principio do eu, pois, é a partir do outro que eu existo. É uma perspectiva existencialista que dá meios e subsídios para entender sobre alteridade, especialmente na figura de   como Jean-Paul Sartre; a filosofia fenomenológica de Maurice Merleau-Ponty o pensamento sobre a “psicologia do espaço” de Marcel Proust – todos refletiram sobre o outro a observar o ser humano no mundo, em nossas relações uns com os outros.

A partir de especulações como estas surgem, então, ideias conceituais sobre alteridade e seus desdobramentos. Alteridade passa a significar uma atenção critica ao outro, o outro não pode ser fragmentado, ele deve, através de um processo interativo e de um estranhamento, possibilitar o encontro com o outro em sua complexidade. São conversas horizontais de dialogo efetivo onde se compartilham experiências. São, portanto, narrativas que transmitidas entre eu e o outro. Outro ponto a pensar é na liquefação e na fluidez dos que praticam o espaço de pertencimento. Isto significa compreender a densidade, o poder de dinâmica e a complexidade dos significados tecidos pelos agentes sociais. Como nos indica Ciampa quando diz que “essa expressão do outro que também sou eu consiste na ‘alterização’ da minha identidade, na supressão de minha identidade pressuposta e no desenvolvimento de uma identidade posta como metamorfose constante” (CIAMPA, 1989, p. 70) 

Por Eloana Santos Chaves


REFERÊNCIAS


AGAMBEN, Giorgio. Ensaio sobre a destruição da experiência, original de 1978. In: infância e história: destruição da experiência e origem da história. Trad. Henrique Burigo. Belo Horizonte: editora UFMG, 2005.

BEREINSTEIN, Paola. Elogio aos Errantes.  Salvador: EDUFBA, 2012.

https://espacoetica.com.br

https://corpocidade4.wordpress.com/inscricao/pre-inscricao-do-seminario-publico-e-seminario-de-articulacao/

https://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/outubro2007/ju378pag12.html
Share:

0 comentários:

Postar um comentário