sábado, 29 de outubro de 2016

NOVIDADES SOBRE A PRÉ-HISTÓRIA DA AMAZÔNIA

Até pouco tempo acreditava-se que a chegada dos primeiros seres humanos a América do Sul havia ocorrido apenas no começo do holoceno ou no pleistoceno tardio, sugerindo uma dispersão súbita e uma adaptação notável capaz de explicar a diversidade cultural até então catalogadas. Todavia, considerações e datações recentes discutidas por Araújo (2008), situaram a provável chegada e dispersão dos primeiros seres humanos na América do Sul a um período entre 33000 a 14000 anos atrás, o que implica em um processo de ocupação mais gradativo e de evolução cultural e social mais realista.

Na Amazônia, as mais antigas datações foram realizadas no sítio arqueológico da Pedra Pintada (PA), onde foi encontrado um volumoso sinal de indústria lítica e de pintura rupestre, sugerindo uma provável ocupação entre 10000 e 11200 anos atrás. Alguns pesquisadores chegam a especular datações mais antigas, considerando a raridade de sítios arqueológicos preservados. Acredita-se que por conta da intensa atividade orgânica e do clima absolutamente úmido dos últimos 3000 anos, as possibilidades de vestígios arqueológicos anteriores ao médio holoceno sejam mínimas na Amazônia, assim, a maioria dos sítios arqueológicos observados hoje nessa região, com raras exceções, são relativamente recentes, remontando aos últimos dois milênios (PROUS, 2006).

Outra ideia questionada pelos estudos arqueológicos mais recentes é a de que a Amazônia, enquanto uma região hostil pela dimensão e intensidade de sua natureza e pelas condições inférteis dos solos, não poderia conter agrupamentos humanos elaborados e fixos, dotados de conhecimento técnico e em pleno exercício cultural e político capazes de coalizar uma sociedade complexa e numerosa. Aceitava-se que as populações amazônicas estariam niveladas como caçadores-coletores marginalizados das regiões mais favoráveis à vida, em sua maioria nômades que não praticavam dedicadamente a domesticação das plantas e animais e as inovações tecnológicas ali manifestadas, como a cerâmica, eram oriundos da mesoamérica ou dos Andes. 

Pinturas rupestres no Parque Nacional de Monte Alegre (PA), onde já foram registrados mais de 100 sítios arqueológicos, inclusive o da Pedra Pintada, com pinturas datadas de até 11200 anos. Fonte: SEMAS-PA.

Entretanto, em 1991 a arqueóloga Anna C. Roosevelt destrinchou alguns sítios arqueológicos amazônicos (Taperinha e Caverna da Pedra Pintada), e evidenciou sinais arqueológicos que admitem a presença humana já há pelo menos 11200 anos atrás e uma complexidade técnica das populações pré-colombianas, exemplificada com cerâmicas para armazenamento e cozimento de alimentos e artefatos líticos datados em até 9000 anos, admitindo a capacidade agrícola e técnica dos povos ancestrais. Outros pesquisadores, como Robert Carneiro (2007), também demonstraram que as tecnologias e métodos evidenciados arqueologicamente na Amazônia, inclusive a agricultura, desenvolveram-se localmente, não sendo apenas uma derivação intrusiva. Além disso, segundo André Prous em seu livro O Brasil Antes dos Brasileiros, o principal elemento que veio a consolidar a ideia de que a Amazônia compreendeu povos numerosos, vastos e complexos foi a constatação da quilométrica presença de terras pretas com até 1,5m de espessura nas várzeas dos principais rios, especialmente o Amazonas. As terras pretas são solos elaborados pela ação humana através da compostagem e do acúmulo de lodo trazido pelas eventuais inundações. Altamente férteis e indiferentes à rotatividade, as terras pretas podem ter amparado agricultura intensiva de sociedades organizadas e populosas.

Murrieta et. al. em Assim Caminhou a Humanidade (2015), admite que a forma econômica que provavelmente vigorou na Amazônia pré-histórica era baseada na pesca, na coleta, na caça e no cultivo de baixa intensidade, no entanto, tais características econômicas não foram empecilhos para o florescimento de civilizações complexas, dotadas de estruturas políticas como os Cacicados, e nem mesmo impossibilitou a domesticação e seleção artificial de plantas comestíveis e medicinais, como a mandioca, o amendoim, a pimenta, o abacaxi, o guaraná e a pupunha (datados entre 4000 a.C. a 10000 a.C.) e que exprimem, junto as caças de animais terrestres e fluviais, a grande variedade dietética dos povos amazônicos.

Os Cacicados representaram o mais completo sistema político e de organização social da Amazônia. Consistiam na coesão política, cultural e até linguística de vários vilarejos, cada qual com até milhares de habitantes, que floresceram principalmente na calha do rio Amazonas, do Rio Madeira e Orenoco. Tais vilarejos ou aldeias possuíam líderes particulares que estavam subordinados a uma chefatura geral específica, que organizava a coesão de tais grupos. Os Cacicados enquanto sistema de organização política e social provavelmente perduraram até o século XVIII ou XIX, sendo gradativamente mirrados à medida que a expansão colonial invadia os territórios amazônicos e carregava consigo violências e doenças que definhavam rapidamente com os povos locais. Todavia, estes cacicados representaram a forma política estruturalmente adaptada, endêmica, às condições ecológicas da Amazônia, desencadeando manifestações simbólicas, culturais, sociais e religiosas particulares que até hoje resistem nos povos indígenas remanescentes. 

Por Anderson Rodrigo Pereira da Graça

REFERÊNCIAS:


PROUS, André. O Brasil antes dos Brasileiros: a pré-história do nosso país. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

CARNEIRO, Robert L. A base ecológica dos cacicados amazônicos. Revista de Arqueologia, v. 20, p.117-154, jan. 2007. Disponível em: <http://revista.sabnet.com.br/index.php/revista-de-arqueologia/article/view/397/399>. Acesso em: 07 dez. 2015.

NEVES, Walter Alves; RANGEL JUNIOR, Miguel José; MURRIETA, Rui Sérgio S. (Org.). Assim caminhou a humanidade. São Paulo: Palas Athena, 2015.

ARAUJO, Astolfo Gomes de Mello. Geomorfologia e paleoambientes no leste da América do Sul: implicações arqueológicas. In: RUBIN, J.C.R., SILVA, R.T. Geoarqueologia: teoria e prática. Goiânia: UCG, 2008. Cap. 7. p. 135-180.
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