domingo, 13 de julho de 2014

AS EXTINÇÕES DA MEGAFAUNA MUNDIAL PELO “BOM SELVAGEM”


Por: Marcelo Domingos Leal



Figura 01 – Pintura Caverna de Altamira (Espanha) –
Bisão da Estepes (Bison priscus):
A relação homem/meio ambiente tem sido conturbada desde que pudemos ser considerados “Homo sapiens sapiens, ou seres humanos”. Tentando mostrar algumas destas relações, este texto traz algumas informações relevantes sobre a relação homem/fauna, considerando a chegada do ser humano aos continentes hoje conhecidos.











PLEISTOCENO: O ADVENTO DO Homo sapiens sapiens, E A QUEDA DA MEGAFAUNA MUNDIAL
Quando nos referimos a grandes extinções logo temos a percepção que estas ocorreram há milhões de anos atrás, e foram ocasionadas apenas por catástrofes de proporções mundiais. As mega extinções da Era Paleozoica são exemplos disto, e a mais famosa de todas: a extinção dos dinossauros no Período Cretáceo da Era Mesozoica, ocasionada pela queda de um meteoro no que hoje é o Golfo do México. A queda deste meteoro na Península de Yucatán (México), é a teoria mais aceita para esta megaextinção, trabalho postulado pelo físico Luiz Walter Alvarez e seu filho, o geólogo Walter Alvarez em 1980.
Fora estas grandes extinções das quais realmente nos não temos culpa (e isto nos soa até como milagroso), ainda temos a ideia de que o homem atual (entenda por atual não apenas o homem do século XX, mas o homem como espécie (Homo sapiens sapiens)), é responsável por todas as formas de extinções que ocorreram e ocorrem hoje em nosso planeta, seja direta ou indiretamente, através da caça, do desmatamento, da poluição, do tráfico de animais e plantas, da ganância, etc... Arraigou-se em nossa sociedade o mito do “Bom Selvagem”, aquele homem que estava ligado e vivendo harmoniosamente com a natureza há milhares de anos, sendo que estes não foram responsáveis pelas extinções que ocorreram em nosso mundo mais recente (desde 100 mil anos atrás). Ainda acreditamos que estas foram obras de derivações climáticas ou catástrofes naturais, não tendo o “Bom Selvagem” nada a ver com isso.

“Eu procuro familiaridade com a Natureza – conhecer seus estados de espírito, e maneira de ser. A Natureza primitiva é a mais interessante para mim. Eu faço imensos sacrifícios para conhecer todos os fenômenos da primavera, por exemplo, pensando que eu tenho aqui o poema inteiro, e então, para meu desapontamento, eu ouço que é apenas uma copia imperfeita a que eu possuo e li, que meus ancestrais rasgaram muitas das primeiras folhas e passagens mais grandiosas, e mutilaram-na em muitos lugares. Eu não gostaria de pensar que algum semideus tivesse vindo antes de mim e escolhido para si algumas das melhores estrelas. Eu quero conhecer um paraíso inteiro uma Terra inteira. Todas as grandes árvores e animais selvagens, peixes e aves se foram”.
Henry David Thoreau – Walden e a Vida nos Bosques


Henry David Thoreau, discípulo do escritor Ralph Waldo Emerson, que escreveu a famosa obra não ficcional “Nature”, escreveu estas linhas em uma cabana de madeira construída por ele mesmo em New Hampshire nos EUA, por volta de 1846. Esta cabana era envolta por uma magnífica floresta temperada, como descreveu o próprio Thoreau. Thoreau autor de “Walden e a Vida nos Bosques” que viria a inspirar os Hippies da década de 60, e “A Desobediência Civil” que inspiraria Ghandi em sua luta pela libertação da Índia, era um homem muito a frente de seu tempo, possuindo uma percepção do mundo a sua volta extremamente peculiar. Ao escrever estas linhas, Thoreau não tinha ideia de que estava premeditando as mais horrendas descobertas que relacionavam o convívio humano com a natureza e a megafauna. Assim, com este livro, ele já teria descrito com maestria o que podemos chamar de “Poema Imperfeito”. Se pudéssemos transportar Thoreau para a época presente, com certeza sua tristeza seria insuportável, visto a quantidade de dados que temos hoje referente ao passado mais recente do Homo sapiens sapiens (homem “sábio”). Estes dados revelam que grande parte das extinções estão relacionadas com o chamado “Bom Selvagem”, e que a chegada destes ao continente americano (América do Norte, Central e do Sul), e a Oceania (principalmente Austrália e Nova Zelândia) foi responsável diretamente pela extinção da megafauna destes locais. 
Quando nos referimos à chegada do homem “branco” a Oceania e a algumas ilhas da região, temos relatos de extinções locais e em proporção não muito grande como, por exemplo, a caça e aniquilação do Dodô (Raphus cucullatus) das ilhas Mauricio no Oceano Indico por volta de 1660, e a extinção do Lobo da Tasmânia (Thylacius cynocephalus) ainda no século 20, mais precisamente em 1934, quando o último exemplar morreu em cativeiro neste mesmo país. No caso das Américas temos como extinções mais significativas a das Pombas Migratórias (Ectopistes migratorius) da América do Norte, e a matança indiscriminada de bisões (Bison bison) neste mesmo continente. Porém estas ainda eram consideradas extinções pontuais, sendo que após o processo de industrialização por volta de 1815, a procura por matéria prima se intensifica e danos sérios significativos ao meio ambiente são consequências naturais do “capitalismo industrial”.
Porém, ao começar a procurar, e achar com mais intensidade fósseis de animais estranhos à biota da época atual, os chamados naturalistas acreditavam que estes tinham sido extintos por fatores atípicos, e dentro desta filosofia, duas escolas duelavam em busca da melhor explicação para estas extinções. Eram estas as escolas:


-Catastrofismo – liderada pelo pai da paleontologia George Cuvier, teorizava que as extinções estavam relacionadas com dogmas religiosos, e assim os fósseis representavam varias criações divinas;

-Gradualistas – liderada por Charles Lyell que dizia que os fósseis eram representantes de animais mais basais (antigos) dos que encontramos hoje.


Estas duas escolas apesar de possuírem ideias diferentes sobre a forma de extinção desta fauna, concordavam em uma coisa: o homem antigo nada tinha a ver com estas extinções, sendo elas causadas por fatores externos (abióticos), evolutivos ou divinos. Mas, se as teorias sobre viagens no tempo fossem válidas e reais poderíamos então voltar ao passado, a cerca de 150 mil anos atrás, e assim observar a fauna dos continentes antes da chegada do homem arcaico e moderno a estas localidades. Quando falamos na chegada humana a novos continentes, estamos falando da dispersão do homem arcaico e moderno pelo globo terrestre a partir da África, e então, podemos citar duas linhas de estudo: a dispersão do homem arcaico e a diáspora do homem moderno.

A primeira dispersão (partindo da África a cerca de 700.000 a.a.), ocorre depois da “invenção” e do uso de ferramentas, que mudou o acesso a alguns recursos alimentares de alto valor energético, como o tutano dos ossos, por exemplo. Acredita-se, portanto, que não foi uma coincidência que a primeira grande expansão humana, tendo como protagonista o H. erectus, e que tenha acontecido apenas após o desenvolvimento de padrões nutricionais mais vantajosos.

A segunda diáspora ocorreu a cerca de 150.000 a.a., e contou com os hominídeos anatomicamente modernos, entre eles, o H. sapiens. Essa dispersão dos homens modernos teria sido mais rápida que a dos homens arcaicos, e embora não tenhamos dados demográficos para os arcaicos, a amplitude geográfica/quantidade de sítios arqueológicos existentes, para poucas dezenas de milhares de anos, confirma que a expansão populacional do homem moderno foi demograficamente avassaladora, mudando o cenário demográfico da espécie. Esta ocupação repentina está evidenciada principalmente a partir de 30.000 anos atrás, quando grandes extensões de terras na Eurásia já estavam livres do gelo, e a multiplicação de sítios dos chamados Homens de Cro-Magnon mostram uma cultura sofisticada. Muitos destes sítios estão localizados em cavernas, na forma de pinturas rupestres, como em Altamira, na Espanha, e Lascaux, na França. Da Europa e da Ásia, os homens modernos alcançaram os outros continentes, caracterizando assim o H. sapiens dispersou-se como uma espécie pandêmica, espalhada por todo o mundo.

Esta conquista do mundo contada pelas evidências arqueológicas atuais, mostram que a travessia das maiores barreiras geográficas, como os oceanos, teria acontecido apenas nos últimos 60.000 anos. Antes do final do último grande período glacial e do domínio europeu pelos Cro-Magnon, outros homens modernos, dotados de recursos tecnológicos que já incluíam a navegação, chegavam a lugares como a Austrália, e pouco mais tarde à América.

O povoamento da Austrália parece ter se dado entre 120.000 e 60.000 anos atrás, via mar (Nile & Clerk, 1996). Estes deslocaram-se da Sundalândia, área que compreendia Bornéu, Indonésia, Filipinas e outras terras do Sudeste asiático, alcançando o Timor, de onde podem ter cruzado extensões de mar raso de algumas dezenas de quilômetros, até chegarem a Kimberley, na Austrália atual.

Quanto a América, duas teorias falam acerca da chegada do homem ao nosso continente. A mais aceita diz que o homem chegou à América após atravessar o Estreito de Bering, entre e a Rússia e o Alasca. Essa teoria é a do “Clovis first” (“Clovis primeiro”), em referência ao povo Clovis, que, segundo a hipótese, teria sido o primeiro a chegar às Américas. Porém, dados recentes desafiando a teoria de Clóvis. Em 2011, arqueólogos encontraram no Texas pontas de projéteis que mostravam que os caçadores haviam chegada à região conhecida como Buttermilk Creek há 15.500 anos. Também nos EUA’s, a análise do DNA de humanos encontrados em uma caverna de Oregon mostrou que eles haviam vivido no local 14 mil anos atrás. No Uruguai, paleontólogos publicaram resultados de estudos em novembro de 2013, sugerindo que os seres humanos caçavam preguiças gigantes há cerca de 30 mil anos. Além disso, Tom D. Dillehay, antropólogo da Universidade de Vanderbilt, nos EUA, sustenta em pesquisa que homens viviam num local que hoje é conhecido como o sítio arqueológico de Monte Verde, no Sul do Chile, há 14.800 anos. Isto vem pondo em cheque a chegada do homem a cerca de 13.000 anos segundo a teoria de “Clóvis First”.

A segunda teoria seria a transoceânica, onde há cerca de 10 mil a.a. os homens que habitavam a Polinésia (na região da Oceania) se locomoveram em direção à América do Sul em pequenos barcos. Uma deriva desta teoria transoceânica, elaborada pela arqueóloga brasileira Niéde Guidon, diz que o homem chegou à América do Sul a cerca de 100 mil a.a. vindo diretamente da África.

Mas, se atenha apenas as datas propostas por estas teorias de dispersão: 13,5 mil a.a., 10 mil a.a., 100 mil a.a., 15.500 mil a.a., 14 mil a.a., 30 mil a.a. Podemos observar que muitas espécies de animais da megafauna do Pleistoceno desapareceram do registro fóssil nestas mesmas épocas. Ou seja, após a chegada do homem, seja o arcaico, seja o moderno.

A fauna da Euroásia antes da chegada do homem contava com uma megafauna fantástica, representada por animais como o Manute Lanudo (Mammuthus primigeus), várias espécies de tigres-dente-de-sabre (Smilodon populator, S. gracilis, S. fatalis), Urso das Cavernas (Ursus spelaus), Guepardo gigante (Acinonyx pardinensis), Hienas gigantes (Pachycrocuta brevirostris), Bisões de Chifres Longos (Bison latifrons), Mastodontes (do Gênero Mammut), entre centenas de outras espécies.

Um pequeno salto e estaríamos na América do Sul, e pasmem, teríamos a impressão de estar passeando por solos africanos, tamanha diversidade de animais de grande porte, hoje encontrados apenas naquele continente. Poderíamos ver representantes deste mundo “real imaginário” como a Ave Aterradora da América do Sul (Adalgalornis spp.), a Preguiça Gigante (Megatherium americanum), algumas espécies de Mastodontes (do Gênero Mammut), uma espécie de Tatu Gigante, o (Pampatherium typicum), além de Toxodontes, animais parecidos com hipopótamos, mas sem nenhum parentesco com os mesmos. Indo até a Oceania, e passando pela Nova Zelândia, nossos olhos não acreditariam nas imagens observadas neste grande país.

É verão, e na Nova Zelândia ou Ilha de Aoteroa (em Maori, Ilhas das Grandes Nuvens Brancas) um país que mistura climas extremamente diferentes está para presenciar uma cena de caça extremamente assustadora, mas, entretanto linda do ponto de vista evolucionista e de diversidade biológica. Um pequeno grupo de Moas (Didornis spp.), alimenta-se tranquilamente nas áreas descampadas da então Nova Zelândia. As Moas, com suas asas atrofiadas, e seus mais de 300 kg apoiados em até 3,7 m de altura não era um animal fácil de ser caçado, alias, quase não tinha predadores naturais, quase. Porém esta calmaria aparente esta para ser perturbada, quando do alto de uma colina surge um animal com uma incrível envergadura de mais de 2 m de uma pontada asa a outra, e cerca de 20 kg de peso: é a Águia de Hasst (Harpagornis moorei), que com suas garras poderosas, bico rígido e encurvado como os das águias modernas, se lança sobre o grupo de Moas. A uma velocidade de descida assustadora, as Moas não tem muito que fazer, a não ser dispersar e torcer para não ser a vitima escolhida pela imponente Águia de Hasst. Porém a Águia já havia fixado sua vitima, uma Moa que apresentava uma das pernas machucada, sendo assim mais lenta que o normal, esta é prontamente atacada pela fera. Logo a Águia esta acima da pobre Moa que é golpeada na parte do seu longo pescoço pelas garras afiadas de seu predador. A Moa então é segurada até parar de se debater e torna-se mais uma vitima de uma dos maiores predadores já existentes no nosso mundo atual, a Águia de Hasst.

Esta cena era comum no que chamamos hoje de Nova Zelândia, um belo país do continente Oceania. A Águia de Hasst (Harpagornis moorei), a Moa (Didornis spp.), os morcegos não voadores, animais com asas atrofiadas que exerciam o papel de roedores, entre outros animais foram extintos ao entrarem em contato com os maoris, povo nativo deste país. Na Austrália estaríamos em contato com cangurus gigantes (Macropus titan) muito maiores que o atual (Macropus giganteus), capivaras marsupiais, tamanduás marsupiais, hipopótamos marsupiais, além de leões e lobos marsupiais (Lobo da Tasmânia (Thylacius cynocephalus)), este último já mencionado em parágrafos anteriores.

De norte a sul do planeta, da Oceania, às Américas, grandes extinções representadas principalmente pela megafauna mundial foram frequentes e retiram o titulo de “Bom Selvagem” dos nossos antepassados. E grande parte destas extinções estão relacionadas com a chegada do homem a estas localidades, ou, com o aperfeiçoamento de técnicas de caça por esses mesmos.


Segundo o Paleontólogo Paul Martin, existem oito padrões definidos para as extinções do Pleistoceno-Holoceno.

1. Os animais de grande porte, a megafauna (representada por exemplares que pesavam mais de 44 kg) foi exterminada; apenas na América do Norte a perda foi de 73,3% desta megafauna, na América do Sul 79,6% e na Austrália cerca de 86,4%;
    2. A única exceção é a África que perdeu apenas 14,3% da sua megafauna (leia a possível causa deste fato na continuação do texto);
      3. Pequenos mamíferos e aves sobreviveram bem no continente, mas não em ilhas oceânicas;
        4. Em cada região as extinções foram repentinas no tempo geológico (ligação direta com a chegada do homem);
          5. Entre regiões elas foram assincrônicas (leia alguns parágrafos abaixo);
            6. Não houve substituição para as extinções ocasionadas;
              7. As extinções seguiram as pegadas dos homens;
                8. A associação de fósseis humanos com fósseis da megafauna é rara, com exceção da Nova Zelândia.



                Estas aniquilações da megafauna não ocorreram, porém ao mesmo tempo, descartando assim um motivo como clima, a queda de algum meteoro, ou alguma catástrofe natural. Todos os grandes animais representativos de faunas locais sumiram no Pleistoceno e em datas diferentes, sendo que a datação de seus fosseis deixa claro esta diferença temporal. Na Austrália estas extinções ocorreram há cerca de 40-50 mil a.a. (anos atrás), na Europa a uns 20-30 mil a.a., nas Américas há pouco mais de 10 mil a.a. Em ilhas estas são ainda mais recentes, cerca de 6 mil a.a. Em Madagascar uma espécie de Lêmure gigante, o Megaladarpis edwardsi teve sua existência relatada por um governador francês chamado Etienne de Flacourt no século XVII que disse existir na ilha “um primata cujo tamanho assemelhava-se a de um homem”. No Chipre, uma ilha situada no Mar Mediterrâneo, ao sul da Turquia, o Hipopótamo Pigmeu de Chipre (Phanourios minutis) se extinguiu há meros 2 mil a.a.

                Mas e na África? Você deve ter notado que não comentamos nada sobre este grande continente, nenhuma grande extinção em massa, aliás, se você esta atento à leitura notou que a porcentagem de extinção na África é bem menor que nos outros continentes, 14,3%. E por que no continente africano ainda temos uma megafauna tão representativa? Para responder a esta pergunta podemos recorrer à evolução humana e sua possível origem. Segundo os antropólogos e evolucionista humanos, o homem tem seu berço no continente africano, e várias espécies de hominídeos surgiram neste continente. Após anos de evolução, estes migram do continente africano para ocupar todas as regiões do planeta, chegando primeiramente a Eurásia, depois a Oceania e posteriormente as Américas.

                Então, podemos analisar a seguinte situação: Se o homem surge e evolui no continente africano para posteriormente se aventurar em outras terras, é obvio que esteve em contato com outros seres vivos, incluindo então a megafauna da época, que pode se acostumar e co-evoluir com estes hominídeos, aprendendo assim a encará-los como possíveis predadores ou presas. Então os animais do continente africano estavam “acostumados” com os primeiros hominídeos, que viriam a dar origem aos seres humanos? Sim e este foi um fator decisivo para sua sobrevivência, o que não ocorreu com a megafauna de outras localidades, que recebem o homem como um novo ocupante de seus territórios, um novo caçador, com métodos não conhecidos por estes animais, e assim, estes tornaram-se muito vulneráveis a predação. Tomemos como exemplo o caso em que Charles Darwin em sua viagem com o navio Beagle, ao aportar nas ilhas Malvinas abate uma espécie de raposa local, a Warrah (também conhecida por Raposa das Malvinas ou Lobo da Ilha de Falkland, cujo, nome cientifico é Dusicyon australis, apenas utilizando um martelo de geólogo. Isto ocorreu por um fato simples, a raposa não entendia o homem como um potencial agressor, predador. Sua curiosidade e “ingenuidade” a levaram à morte, como os animais da megafauna das Américas, Oceania e Eurásia.

                Mas outra dúvida paira no ar: Como homens primitivos seriam capazes de extinguir em grande massa animais corpulentos e muitas vezes agressivos como Mamutes, Dentes-de-Sabre (tigres e ursos), entre outros? Esta resposta pode ser dada a partir da observação de tribos que vivem ainda em estado semi-primitivo como os pigmeus africanos. Estas tribos assemelham-se em tamanho aos hominídeos antigos (ou até menores), e caçam com destreza e coragem animais como elefantes, rinocerontes, hipopótamos entre outros. Além disso, cabe salientar que seus métodos de caça são mais rústicos que os dos chamados povos primitivos.

                Então acompanhando estas tribos que saíram da África para povoar outros continentes, podemos seguir seus rastros de caça e extinção. Estas tribos vinham caçando, deixando a fauna local muito prejudicada, e após certo tempo migravam para outros locais, devastando assim outras regiões. Para completar a matança, outras tribos que acompanhavam de longe as tribos pioneiras, terminavam de aniquilar as espécies e espécimes que por ventura conseguiram escapar. Além da caça, estes novos habitantes dos descobertos continentes traziam consigo animais exóticos e doenças que não faziam parte da convivência da fauna local, acelerando o processo de extinção.

                Perante estes fatos e muitas outras evidências que não foram postas neste texto, podemos concluir que o “Poema Perfeito” teve várias de suas páginas arrancadas por quem nos mesmos esperávamos – os nossos “Bons Selvagens” – que não nos deram a oportunidade de conhecer uma fauna extremamente rica e bela. Porém, não podemos culpar impiedosamente um aglomerado de homens, mulheres e crianças que tinham como objetivo apenas sobreviver. Estes não tinham nenhuma perspectiva do que era uma extinção e seus horizontes iam apenas até onde seus olhos alcançavam, ou até onde a caça se findava. Mas nós, construtores de uma sociedade moderna, com um grau de conhecimento e desenvolvimento tecnológico muito maior que qualquer outro ser vivo que já tenha passado pelo planeta, temos a obrigação de não cometermos os mesmos erros dos chamados “Bons Selvagens”, e assim preservar algumas páginas da história deste livro magnífico escrito durante a vida de nosso planeta.


                PARA SABER MAIS:

                FERNANDEZ, F. A. S. O Poema Imperfeito: Crônicas de Biologia, Conservação da Natureza, e seus Heróis. 2. ed. – Curitiba – PR. Ed: Universidade Federal do Paraná, 2004.

                REFERÊNCIAS

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                DEAN, W. A Ferro e Fogo. 1. ed. – São Paulo – BR. Ed: Companhia das Letras, 2002.

                DIAMOND, J Collapse: How Societies Choose to Fail or Survive. 1. ed. – London – UK. Ed: Penguin, 2006.

                FERNANDEZ, F. A. S. O Poema Imperfeito: Crônicas de Biologia, Conservação da Natureza, e seus Heróis. 2. ed. – Curitiba – PR. Ed: Universidade Federal do Paraná, 2004.

                HUNT. T. L. O colapso dos rapanui. Revista Scientific American Brasil. Ano 5 n° 57 – p. 62-70. fev. 2007.

                POUGH, F. H.; JANIS, C. M.; HEISER, J. B. A Vida dos Vertebrados. Coordenação editorial da edição brasileira Ana Maria de Souza. São Paulo – SP. Ed: Atheneu 3° ed. 2003.

                WONG, K. Em busca do primeiro homem. Revista Scientific American Brasil – Novo Olhar sobre a Evolução Humana. n. 2 – Edição Especial, p. 6-15. Nov. 2003.

                WOEHL, G JR. Degradação Ambiental por Povos Antigos. Pesquisador e Coordenador de Projetos do Instituo Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade – Guamirim – SC

                Dispersão do Homo sapiens e Povoamento dos Continentes – Sheila Mendonça de Souza – Disponível em: http://www.arqueologia.mn.ufrj.br/docs/papers/sheila/1_paleo_cap_4.indd-1.pdf

                Achados Desafiam Conhecimento sobre Povoamento das Américas – O Globo Ciência. Disponível em: http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/achados-desafiam-conhecimento-sobre-povoamento-das-americas-12015168#ixzz33rx2APzi

                Antes de Colombo – Evanildo da Silveira. Disponível em: http://www.icb.ufmg.br/labs/lbem/reportagens/AntesdeColombo2009rpb.pdf 

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